domingo, 27 de outubro de 2013

Violência, Sociedade e Religião: breve diagnóstico de nosso enfermo e efêmero presente


Fran Alavina

“(...) violência dos oprimidos ou dos opressores?”. (Dom Helder Câmara).
Na Babel consumada que é o mundo hoje, no qual a comunicação parece infinita, embora poucos se compreendam, uma palavra, que está na ordem do dia, aparentemente realiza certo consenso entre os beligerantes das certezas fáceis, entre os consumidores da infindável tagarelice cotidiana. Promovida, em particular, pelas mais diversas mídias. Tal palavra consensual é o termo violência: em suas diversas formas, usos e desusos. No âmbito do termo violência, repetido de modo torturante em nosso cotidiano, se esconde e se disfarça, mas também se desvelam as estruturas degenerescentes de nosso presente, existentes nas mais diferentes esferas do mundo da vida. Assim, a repetição desenfreada do termo violência revela, talvez, uma das faces da mais atroz patologia coletiva, gestada em uma sociedade que nem ao menos podemos definir de modo unívoco: pós-moderna, hipermodernidade, supermodernidade, modernidade tardia, sociedade do espetáculo, sociedade transparente, idade neobarroca, realidade líquida, cultura do efêmero e do descartável?
São tantas e díspares as tentativas de definição do nosso modo de ser social no presente, que a face de nossa sociedade é definida justamente pela falta de uma: que seja precisa, distinguível e acabada. É como se ante o espelho, houvesse uma imagem, mas de tal modo múltipla e fugidia, que nenhum traço de constância é identificado, fixado, retido. Ora, a falta de uma face definida não seria uma marca da violência difusa da nossa atualidade, uma vez que a falta de uma face definida pode ser, também, um rosto desfigurado? Faz-se, assim, necessário não olvidar, o traço comum às diferentes definições do nosso estado presente. O modo de ser, sentir, pensar e agir: em suma, a capacidade criadora de sentido social, outrora enraizada em solo firme, na atualidade cedeu lugar aos deslocamentos. Desse modo, prevalece o enfraquecimento das determinações espaciais e temporais, na realização de sentido social e na manutenção dos liames coletivos.
Não tendo um lugar fixo e determinado, as formas existenciais da atualidade operam no registro da liquidez e do efêmero. A construção da identidade pessoal cede lugar ao narcisismo, os lugares aos não lugares, o público ao privado, o sentir autêntico
ao já sentido, o natural ao artificial, o popular à massificação e uniformização, que tem por modelo o homem médio e consumista. Ou seja, no estado presente, os indivíduos se igualam na identificação dos mesmos desejos de consumo. Somos semelhantes, posto que capazes de fruir e apetecer com as mesmas marcas, vestir os mesmos looks, viajar para os mesmos lugares, esbanjar os mesmos bens, que embora ostentados com orgulho e diletantismo, são supérfluos. Bens e objetos feitos para saciar um desejo curto em sua durabilidade, mas quase infinito em sua capacidade de desejar sempre mais do mesmo. Ora, tal relação estabelecida entre os indivíduos, na atualidade, e a realização de seus desejos não é também uma forma de violência? O desejo e a satisfação de nossas necessidades afetivas, na forma como são exercidas no presente, não configuram um desejo violentado, uma violência contra o próprio desejo? Esta não seria uma violência que se faz de modo cínico-sádico, pois sabida e reconhecidamente atroz? Não seriam frutos da insatisfação e não adequação ao modelo de homem consumista, as novas formas de delinquência e violência, que afligem, em particular, a cultura juvenil? Ainda é possível indagar: as novas formas de religiosidade estetizadas, o fascínio quase ingênuo da classe média pelas religiões orientais, não seriam consequências da união entre consumismo e desejo violentado, uma vez que a Religião se configura, também, como desejo do transcendente? Também a Religião, se transformou em objeto de consumo? Se sim, qual será o seu futuro como esfera que se rendeu à violência exercida contra a potência do desejar?
Tais indagações, e outras que poderiam ser feitas com base na relação entre consumismo, desejo e violência apontam que a violência difusa na atualidade explicita-se na passagem do homo sapiens sapiens ao homo consumens. Daquele que sabe que sabe, ao que consome o próprio consumo. Ora, nessa passagem que está na base de quase todas as violências de hoje, que lugar ocupa o homo religiosus?
As questões, até aqui expostas, indicam a existência de diversas formas de violência, porém a repetição de certo discurso sobre o violentar parece apagar a diversidade das formas: unificando as mais diferentes opiniões, teorias e classes sociais. Tal discurso ocupa lugar de destaque, quer em famigerados programas de tv, quer no espaço acadêmico. Sobre a violência todos parecem possuem uma opinião clara, definida e semelhante. Portanto, parece haver um consenso sobre o que é a violência, e quais os remédios para sua erradicação. Todavia tal consenso é apenas aparente, pois reducionista e unilateral. Repete-se e fala-se insistentemente sobre apenas uma forma de
violência: aquela dos furtos, assaltos, e outros crimes classificados pelo Código Penal. Cumpre, porém, não esquecer que na sociedade da violência difusa, atos violentos não são apenas os crimes classificados pela lei penal. Difundida a violência, os atos violentos estão nos lugares mais recônditos e aparentemente mais seguros, como por exemplo, nossa subjetividade e vivência íntima. Como bem demonstram os últimos estudos sobre a “loucura”, nunca se produziu tantas patologias psíquicas, quanto na atualidade. Frutos de uma violência exercida diretamente contra a construção de nossa própria intimidade.
As novas patologias psíquicas, gestadas pela violência difusa, não estão separadas da banalização do sofrimento alheio, da exposição pública desmedida, e não consentida, da dor dos outros. Sob o efeito do discurso unilateral das mídias em relação à violência, agora, estamos como que imersos em uma peça de terror. Na qual os espectadores, sob o peso de extremos efeitos catárticos, assistem espantados e maravilhados as mais atrozes ações humanas. No entanto, não se trata de uma fabulação, de uma mera ficção, porém de uma catarse oferecida pela conversão da realidade em espetáculo. Tão forte é o efeito dessa “catarse do real”, que ante obras de arte terrificantes, se experimenta, apenas, um pálido terror maravilhado. Trata-se de um choque midiático entre os sujeitos e o real, no qual a estetização difusa, a violência difusa, e o poder da mídia se unem em torno de um elemento comum: a redução da violência a apenas uma de suas muitas formas.
Talvez o exemplo mais loquaz dessa união tenha sido os atentados de 11 de setembro, e hoje a ação dos “midiáticos” membros do black bloc. Mesmo com os rostos escondidos, sem face definida, a visibilidade conseguida por meio da dissolução da diferença entre ação política, ato estético (uma vez que se trata de ataques a bens-símbolos) e amplitude midiática, pode revelar-se paradoxalmente vitoriosa e vencida. Pois o modus operandi, ao mesmo tempo em que realiza cum laude a finalidade almejada, também pode ser passível de homologação como prática e estilística revolucionária. Não se deve esquecer que aqueles rebeldes “bem intencionados” do ocupe wall street, facilmente foram homologados, e ao final se transformaram em atração turística, quase que um bem de consumo simbólico, desses que se espera encontrar e desfrutar quando se viaja para países que se tornaram moda. Destinação cruel, esta das nossas ações e intervenções críticas de hoje, que facilmente podem ser inseridas na ordem prevalente; atroz ordem, esta que transforma tudo em seu contrário:
a crítica em adequação, a rebeldia em consentimento, a criação em repetição, o outro no mesmo.
Assim, a banalização de apenas uma das formas de violência, comporta em seu bojo, a violência midiática. Essa é o torturante modo como somos sufocados por um discurso do pânico, que ao tratar da violência, emprega violência igual, ou até maior, ao que se exibe ou é noticiado. Dessa forma, a mídia ao tratar da violência, o faz de modo assumidamente violento. Mas não poderia ser diferente, uma vez que se concebe a violência de forma unilateral e reducionista. Tal concepção já é em si mesma violenta: quase que uma violência contra a própria violência, acabando por aumentar a potência do violentar. Estranho modo esse, o de tentar suprimir a violência, ampliando os violentos. Nada estranho, pois em uma sociedade de estruturas degenerescentes, os meios propostos para erradicação de algo são sempre patológicos e esquizofrênicos. Nesse caso, a esquizofrenia está em tentar erradicar os efeitos e não as causas. Como banir a violência, se as estruturas da organização social são violentas ao extremo? Como uma sociedade pode erradicar a violência, se seu princípio e modo de atuação demandam a existência de uma violência sutil, universal, praticada de modo silencioso, porém bastante eficaz. Dar sempre maior voz à violência, em apenas uma de suas formas, é calar aquela forma mais eficaz e eloquente.
Ao demonizar apenas os efeitos da violência criada por ela mesma, a sociedade procura se purgar, sem deixar, contudo, de praticar aquilo que a torna culpada. Como pecadora persistente e cínica, que sempre confessa o mesmo pecado e se penitencia, mas só para voltar a fazê-lo novamente, entrando em um estado cíclico de cinismo confesso, a sociedade se diz vítima daquilo que ela mesma produz, e que não procura deixar de produzir. Trata-se da crescente desigualdade. Todavia não apenas econômica, mas também social, cultural, religiosa, sexual e étnica, entre tantas outras. Ora, de uma sociedade desigual e padecendo de graves enfermidades, não se pode esperar senão a violência. Que não será exterminada com paliativos, pois estes para quem está em estado convalescente não terá efeito algum. É necessário repensar e refazer nosso ser social no presente, em suas estruturas mais determinantes. Do contrário se continuará a cair na falácia das fácies condenações dos efeitos, em detrimento do banimento das causas. Por fim, tal questão urgente e laboriosa, deve sempre levar em consideração que: “A sociedade por um lado refreia certas formas de violência, mas desencadeia outras”. (Paolo Rossi, Esperanças).

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