quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

UMA VISITA AO PRESÉPIO ANO 2011

Vigília das CEB's - by Jean dos Anjos
UMA VISITA AO PRESÉPIO ANO 2011
            Natal tem a ver com nascimento. Nascimento tem a ver com algo novo. O novo tem a ver com mudança. Mudança tem a ver com esperança. Esperança tem a ver com vida. Vida tem a ver com todos nós. E nós temos a ver com os outros, nos quais habita o sentido do nosso ser, da nossa existência.
            Nem sempre é fácil deixar o outro fazer parte da nossa vida, o outro em toda a sua existência, o outro carregado de suas angústias, seus sofrimentos, suas doenças e seus problemas, suas alegrias e conquistas, seus desejos. Neste sábado que passou, dia 17, experimentamos como faz um bem tremendo deixar o outro entrar na vida da gente e você partilhar, nem que seja por um momento, a vida do outro. Faz bem tanto ao outro como a você. Isso aconteceu na vigília das Comunidades Eclesiais de Base, realizada nas comunidades “Trilha do Senhor” e “São Vicente”. Uma caminhada ao longo de um trecho do trilho deu início a este gesto de solidariedade. Durante toda a noite, até o raiar do dia de domingo, dia do Senhor, “dia de graça”, mais de cem pessoas permaneceram em vigília, reflexão e oração, ouvindo depoimentos dos moradores e todos se confraternizando, formando uma teia comprometedora. Todos os presentes queriam sentir a presença do outro e da outra em sua vida, aquele outro que neste caso é o morador e a moradora daquelas duas comunidades e de mais vinte outras comunidades, moradores todos que vivem a terrível ameaça de serem mandados embora de suas casas, devendo passar exatamente pela mesma experiência pela qual passaram José, Maria e Jesus quando sentiam na pele que “não havia lugar para eles”. Como testemunhara uma senhora ao dizer que neste Natal não estava com vontade de enfeitar a sua humilde moradia com os símbolos natalinos, como fazia durante dezenas de anos. Por quê? Porque para ela, como para tantas outras famílias, nada de novo há de acontecer neste Natal, e a mudança que está prevista não é para melhor, e sem esta esperança não há vida futura e mais digna. Ela falava por duas vezes e levantava a voz ao se referir aos mais de 300 idosos e idosas que moram por lá, e dizia com a voz amarga: “O que vai ser dos nossos idosos? Para onde eles irão?”.
            Os moradores daquelas comunidades, ameaçadas pelo projeto estadual, denominado de “Mobilidade Urbana”, sentem que na realidade trata-se de uma “higienização social”, como expressa em uma das faixas estendidas no local da vigília. “Higienização social” significa dizer que os pobres têm que ser removidos, a fim de que o cartão postal da cidade de Fortaleza, a ser apresentado durante a Copa de 2014, seja lindo, mostrando uma cidade de belos prédios, um lindo e veloz VLT e, principalmente, um cartão postal sem favelas e, acima de tudo, sem pobres. Os moradores também se perguntam por que o poder municipal está omisso nesta questão. E o mais grave: como o Governo do Estado se dá o direito de não cumprir a lei que estabelece como dever das autoridades encontrar um terreno nos arredores, quer dizer dentro do limite de 2 km do antigo local de moradia, para reassentamento de populações removidas. Todos estes pontos, além de mais outros, constam numa nota das CEBs, publicada num jornal local neste domingo, dia 18.
            Eu pergunto: por que tanto autoritarismo? Por que não se abre um canal de diálogo? Será medo? Por que este povo deve passar um Natal cheio de desespero? Por que todas estas 5000 famílias devem entrar no Ano Novo sem esperança em algo melhor? Qual é o sentido de levantar belos presépios estaduais e municipais, enquanto os governantes não têm coragem de visitar os presépios reais e vivos dos humildes que formam a imensa maioria da população da cidade de Fortaleza? Como e com quais argumentos se justifica roubar a esperança de um povo?
            Eu digo: não precisa ter medo. O povo não morde. O povo só quer um pouco de sossego e de paz. Aliás, o povo é de paz. Agora, isso só se entende se visitar esta gente, sentar com ela, escutá-la, e fazer isso desarmado num espírito de paz, que é o verdadeiro e único espírito natalino. Só assim poderá haver nascimento de algo novo que vai mudar o percurso da nossa história e nos dará a todos a real esperança de vida a partir e no outro, aquele no qual habita o sentido do nosso ser, da nossa existência. Não foi por isso que Deus nasceu feito gente, que nem nós?
21-12-2011,

Geraldo Frencken

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Nota de apoio às comunidades do trilho

Vigília das CEB's - by Jean dos Anjos
Nota de apoio às comunidades do trilho em luta contra a política de higenização social do Governo do Estado – Jornal O Povo - 18 de dezembro de 2011

 As Comunidades Eclesiais de Base de Fortaleza, sensibilizadas pelo clamor dos moradores ao longo da via férrea entre Parangaba e Mucuripe, vêm a público declarar sua irrestrita solidariedade aos concidadãos ameaçados de remoção pelo Governo do Estado do Ceará ...
e denunciar o autoritarismo e a falta de diálogo e transparência deste mesmo Governo. Diante da propaganda oficial maciça com relação às obras para a COPA de 2014, as CEBs querem tomar posição, questionando os seguintes pontos:

1. Admitindo a utilidade do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) para melhorar a infraestrutura da cidade em vista da COPA de 2014, questiona-se, no entanto, a necessidade de fazê-lo correr por sobre o trilho atual, já que isso implica mexer com as residências de 5000 famílias, distribuídas em 22 comunidades ao longo da via férrea – algo que é muito oneroso para os cofres públicos, devido às indenizações. Em muitas cidades europeias o VLT (ou bonde) corre sobre trilhos colocados dentro do leito da rua, em faixa própria, sem prejuízo para o trânsito de automóveis. O fato de o Governo Cid Gomes ter descartado tão depressa as alternativas tecnológicas existentes indica que pretende mesmo é “limpar” a área nobre da cidade de famílias pobres para entregar o espaço às grandes construtoras de prédios e condomínios de luxo. Um vídeo que está circulando na Internet comprova claramente esta suspeita!

2. As famílias ameaçadas pelo projeto “Mobilidade Urbana” experimentam, em pleno Natal, um clima de terror e de total insegurança com relação ao futuro de seus lares. Os agentes do Estado têm mantido a população atingida cronicamente desinformada; as iniciativas do Governo têm chegado aos ouvidos das comunidades através da imprensa. Dada a magnitude do drama social que as planejadas remoções desencadearão, deve-se repudiar com veemência o autoritarismo e a falta de diálogo com que as autoridades públicas (des)tratam cidadãos e cidadãs pobres de Fortaleza.

3. Também o poder municipal se omite na questão. Sobretudo a comunidade do Lagamar, transformada em ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) há alguns anos, lembra como a prefeita vetou ao Governo do Estado a implantação de um estaleiro no Titanzinho. Sendo autoridade máxima na capital, poderia fazer o mesmo no caso do Lagamar e de outras comunidades, apostando em urbanização e qualificação das moradias existentes ao invés de remoção. Ou prevaleceria aqui o acordo político eleitoral com o governador por sobre os direitos de cidadãos fortalezenses?

4. As famílias que já aceitaram acordo com os agentes do Governo, por quererem deixar o Trilho em busca de uma área melhor para morar, estão hoje arrependidas: Suas casas têm sido avaliadas muito abaixo de seu real valor, com propostas de indenização pífias que não permitem adquirir uma moradia decente alhures. O Estado nega-se a indenizar mais do que “as paredes da casa”, alegando que a maioria das famílias, embora resida há décadas em seus terrenos, nunca requereu título de propriedade através da Lei do Usucapião. Além disso, habitam normalmente em cada terreno dois ou três núcleos familiares – que são indenizados como se fossem uma única casa! Quanta injustiça!

5. Verificou-se que o terreno apontado pelo Governo Cid para receber as famílias removidas do Trilho, situado além do bairro Pref. José Walter, encontra-se até agora sem infraestrutura e construção alguma. Ao invés disso, está ocupado por população sem-teto à qual tinha sido prometido, anteriormente, como local de sua futura moradia! Diante do impasse, o Governo Estadual aprovou, em regime de urgência, mensagem na AL que autoriza pagamento de R$ 200,- mensais de “aluguel social” para as famílias mais carentes, até o recebimento de um imóvel no projeto Minha Casa, Minha Vida. Pergunta-se: Onde numerosas famílias acharão, contando apenas com esta quantia ridícula, abrigo de sol e chuva – e isso ao longo de no mínimo um ano, já que nenhuma obra habitacional foi iniciada até agora para receber toda essa população? Que “Feliz Ano Novo” é esse que o Governo deseja a seus cidadãos?

6. As comunidades reivindicam que o Governo do Estado cumpra a lei que estabelece como dever das autoridades encontrar um terreno nos arredores do antigo local de moradia para reassentamento de populações removidas. Os moradores do trilho têm direito de permanecerem próximos à área em que têm vivido todos esses anos. Não querem nada além do que é justo. As Comunidades Eclesiais de Base já os apoiam nesta luta. Conclamamos todas as pessoas de boa vontade e as entidades cívicas de defesa dos direitos do cidadão a se ocuparem, também, dessa causa! Para que a justiça e a paz se abracem de verdade, neste Natal...

Pela abertura imediata de negociações sinceras entre governo e comunidades! Pelo direito à moradia digna!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

II Colóquio Teológico - Fotos

Querid@s,

Abaixo, alguns dos melhores momentos do nosso Colóquio em fotos.

Carlo, Geraldo, Antonieta, Michael e Jaefson 
Geraldo Frencken

Michael Kosubek










Carlo Tursi
Salão lotado no Otávio Bonfim

Público atento

João Facundo provoca a mesa e enriquece o Colóquio


Jaefson Rodrigues responde as provocações e torna o Colóquio um
espaço de diálogo.
Movimento Forte


O Movimento cresce

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CURSO LIVRE




Reforma da Igreja
ou
Humanismo Cristão ?
________________________________________________
O dilema de cristãos modernos em igrejas de compreensão pré-moderna da fé
c o m C a r l o T u r s i
Ementa:
Pressionar por reformas nas igrejas a partir de dentro? Ou assumir-se como dissidente e “ir procurar sua turma”? “Os incomodados (com a nova medievalização da fé) que se retirem”? Haveria uma “terceira via” entre doutrina oficial e religiosidade popular? O que Lutero e Erasmo têm a ver com isso? E José Comblin? E Hans Küng e Eugen Drewermann? E Dom Clemente Isnard? E “as minorias abrâmicas” de Dom Helder?
de fevereiro a junho de 2012

todas as quintas feiras

Mensalidade: R$ 50,-
(não há taxa de matrículas 19:00 às 21:00 h


na sede do
Movimento Familiar Cristão
Rua Pinto Madeira 801


Informações e inscrições:
3263-2730








CURSO LIVRE




O Sermão da Montanha
Interpretação existencial
com
Carlo Tursi
Ementa:
Os capítulos 5 a 7 do Evangelho de Matheus explicados e interpretados numa hermenêutica existencial, de forma que realmente nos atinjam no âmago do nosso ser.
Fevereiro – junho de 2012
Todas as quintas-feiras,15:00 – 17:00 h
Na Universidade Sem Fronteiras
Reservas e inscrições: 3224-0909

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

“A Igreja Católica”, de Hans Küng


Este  livro faz você pensar.
É uma história de 2000 anos.
São tantos os assuntos e questões  que se desconheçe a maioria delas.
Küng   foi proibido de ensinar como teólogo católico. É um dos principais representantes do movimento por reformas como ordenação de mulheres, maior aproximação com outras religiões, diminuição do poder do Papa, maior abertura para a modernidade, etc. É interessante notar que o Küng foi colega de seminário do Ratzinger.
O livro é a história da instituição,discuti a mensagem do evangelho, a mensagem cristã..
Vai mostrando o processo de constituição do movimento como Igreja, e, principalmente, a ascenção de Roma como centro da cristandade ocidental ,e, como os vários séculos que foram necessários para se chegar a algum grau de consolidação desse poder..
O projeto de Roma oscilando entre apoiar um Império (para se impor diante de Bizâncio) e ser um Império, levando inclusive ao ataque a Bizâncio e às Cruzadas; a partir do fracasso disso, e das tensões que nascem com os reinos ocidentais, a crise catastrófica que leva à duplicação do Papado em Avignon; a solução da crise através do concílio de Constança, que fortalece a idéia da superioridade do concílio sobre o Papa, um enfraquecimento do papado que é acirrado com a involução do Vaticano para corte real de principado italiano..
 Capítulo interessante,  é o Concílio II ,narrando os compromissos  assumidos, mas  não sustentando (como vemos  ) E,  o espírito do Concílio era mesmo a renovação.
Que, ou apoiamos realmente essa renovação...  ou veremos cada vez mais  igrejas e seminários vazios.
Recomendo o livro, como tambem assistir o curso,Grandes teólogos do século XX.
ministrado  pelo prof. Carlo Tursi, todas as quintas feiras, no Centro Familiar Cristão,
( stella maris- bel.em teologia)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Semana Paulo Freire

"Não é no silêncio que homens e mulheres se fazem, mas na pronúncia do mundo".

imagem da net
 
Semana Paulo Freire
19/10 a 22/10 de 2011
Conferências no
Colégio Santo Tomás de Aquino - Rua Mário Mamede, 750
Bairro de Fátima - Horário: 19h

Quarta-feira, 19/10

"Educar para que? - Valores que devem orientar uma prática educacional freireana"
Conferencista - Prof.ª Ruth Cavalcante

Quinta-feira, 20/10

"Educar quem? - O contexto do Brasil hodierno e as exigências mercadológicas acerca do perfil do educando"
Conferencista - Prof. Luis Távora

Sexta-feira, 21/10

"Educar como? - A prática docente freireana: uma educação dialógica"
Conferencista - Prof. João Figueiredo

Sábado, 22/10

PASSEATA - "Educar para ser livre, responsável e solidário"

Local - Centro Comercial de Fortaleza (Praça do Ferreira), a partir das 8 horas.
Informações - 85.3282.68.37
Realização - O Grupo

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Encontro com o teólogo Eduardo Hoorneart

Nesta quarta-feira dia 12 de Outubro.
Nos reunimos com o teólogo Eduardo Hoorneart
No  encontro foi lembrado o P.José Comblin, sua trajetória de vida e luta, seu legado.






sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Grito dos Excluídos - Fortaleza - 2011


Pra gente matar um pouco a saudade do Grito dos Excluídos no Lagamar - Fortaleza-CE em 07 de Setembro de 2011. O Movimento por uma Formação Cristã Libertadora participou da caminhada e gritou com os demais movimentos:

Pela a Vida Grita a Terra, por Direitos todos Nós.

Postado por Jean dos Anjos

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

“CRISTO É A REGRA DA MISSÃO”

(uma reflexão sobre a nossa missionariedade)

O que significa isto? Significa que devemos voltar sempre à fonte da nossa missão que é o Cristo.
Em diversas passagens dos evangelhos o próprio Jesus determina sua missão:
Em Mateus, capítulos 5 a 7, no “Sermão da Montanha” (“... Vós sois o sal da terra [...]. Vós sois a luz do mundo ...”. Ele deixa a cartilha para a vida de seus seguidores;
Em Lucas 4, 18-20 (“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; ...”), Jesus apresenta a sua própria carteira de identidade; - em Lucas 7, 22-23 (“... os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e aos pobres é anunciado o Evangelho;....”)Ele antecipa o resultado de sua missão,
E em Mateus 25, 31-46 (“... tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e vieste ver-me.”), Jesus nos explica qual deve ser a verdadeira conduta dos que desejam segui-Lo.
É através destas passagens dos evangelhos que podemos entrar no espírito missionário de Jesus.
A missão não deve partir da Igreja e levar de volta a ela, mas sim, deve partir de Jesus e levar de volta a Ele, que, por sua vez, a entrega ao Pai.
É Jesus que nos põe em missão, e a missão dEle não era de fundar alguma Igreja, e sim de anunciar o Reino de Deus.
Como fala Padre José Comblin: “Ele se dedicou exclusivamente ao anúncio e à promoção do Reino de Deus, o que significa dizer que propôs uma mudança radical de toda a humanidade em todos os aspectos, mudança esta, da qual os pobres são os atores, porque somente eles são capazes de atuar com sinceridade e autenticidade para promover um mundo novo. Esta é uma meta política, porque é uma orientação dada a toda a humanidade.”(1)
A fim de ampliar esta reflexão, quero conectar a esta regra da missão, que é o Cristo, outro aspecto tão determinante para a nossa Igreja nas últimas cinco décadas.
O Concílio Vaticano Ecumênico II, que celebrará seus cinqüenta anos em 2012, nos deixou como legado mais importante uma nova concepção de Igreja, como diz Dom Demétrio Valentini: “Após vinte séculos de existência e de experiência vital, a Igreja parou um pouco para refletir sobre si mesma.
Na expressão de Paulo VI, a Igreja neste concílio tomou consciência mais profunda de sua identidade. O passo decisivo foi dado no capítulo II da Constituição Dogmática Lumen Gentium, quando a Igreja se autodefiniu com a figura de Povo de Deus, resgatado por Cristo, convocada para unir toda a humanidade, enraizado na vocação e missão seladas pelo Batismo e pelo sacerdócio comum de todos os fiéis”. (2)
É nesta redefinição que a Igreja descobre seu verdadeiro habitat que é o mundo real dos homens e das mulheres: “..., a Igreja tem diante dos olhos o mundo dos homens, ou seja, a inteira família humana, com todas as 
realidades no meio das quais vive; esse mundo que é teatro da história da humanidade, marcado pelo seu engenho, pelas suas derrotas e vitórias; [...]; mundo, finalmente, destinado, segundo o desígnio de Deus, a ser transformado e alcançar a própria realização.” (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n.º 2). Em seguida, o Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, é fortemente marcado por esta visão sobre a Igreja como “Povo de Deus”. Nele também se fala em “Sacerdócio comum de todos os fiéis”, que está na base do que marcou profundamente a Conferência dos bispos da América Latina em Puebla (1979), quando falaram em “Comunhão e Participação”.
Estas caracterizações e reflexões eclesiológicas e pastorais -“Povo de Deus”, “estar no mundo”, “sacerdócio comum” e “comunhão e participação”- nos levam a uma “Igreja comunitária”, incentivada desde a Conferência de Medellin (1968), aquela Igreja experimentada e vivida pelas Comunidades Eclesiais de Base, tão fortemente presentes na caminhada do Povo de Deus no nosso continente.
É esta Igreja que podemos entender como um dos caminhos que abrirá espaço para a realização do Reino de Deus. Entendo esta maneira de ser Igreja (Dom Aloísio Lorscheider dizia que “comunidade é a única maneira da Igreja ser”)como uma das formas de vivermos a nossa missão, porque nela percebemos claramente as quatro características acima citadas. “Missão” assumida em comunidade por todos aqueles que fazem parte do projeto de Jesus e que, em corresponsabilidade, juntos com Ele, darão sinais da chegada do Reino de Deus no meio de nós.
Hoje em dia a nossa indagação deve ser como vivenciar a mensagem viva de Cristo, de tal maneira que dela nasça uma vida cristã consciente, com verdadeira união na celebração da Eucaristia e com a perspectiva de uma existência social mais humana.
As pequenas comunidades que vivem a sua vida cristã conscientemente tornam visível o invisível! Elas tornam visível o que? A unidade. A unidade como força construtiva que é a base, o fundamento da transformação de um mundo desumano e distante das características do Reino de Deus.
Esta presença unificadora na vida do povo em comunidade não poderia ter se realizado se a sensibilidade por união e vida comunitária não fosse inerente ao ser humano, se a vontade de unir-se não fosse uma característica essencial de todo homem e toda mulher, se este movimento não tivesse tido como ponto de partida as primeiras comunidades dos cristãos nas quais “todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum ...” (Atos 2, 44)
 E “A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma.” (Atos 4,32) e se o movimento iniciado por Cristo não tivesse partido do profundo desejo d’Ele de unir a todos em torno do Pai (“.... para que sejam um, como nós somos um”, João 17, 22b).
Quero crer que, a partir desta maneira de sermos Igreja, poderemos chegar a renovadas maneiras de colocarmos em prática a nossa missionariedade, adaptada aos nossos tempos de hoje, construindo em conjunto respostas adequadas aos anseios dos homens e das mulheres de hoje: missão entendida como um movimento no qual se vive a fé no Cristo Ressuscitado.
Esta missão há de nos interpelar e inquietar: quanto tempo nós, como seguidores de Jesus, “dedicamos ao Amor e à Justiça” (São Vicente de Paulo), que são as pedras fundacionais do Reino de Deus?

Fortaleza, 28 de setembro de 2011
Geraldo Frencken

Fontes.
1-COMBLIN, Padre José. O que está acontecendo na Igreja?
(Conferência proferida por José Comblin em 18 de março de 2010 em San Salvador em comemoração aos trinta anos de morte de Dom Romero)
2- VALENTINI, Dom Demétrio. Revisitar o Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 27-28

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

PROCURA-SE UM BOM PASTOR

Já tiveste a sensação de alguém, falecido há algum tempo, permanecer “vivo” para ti? Permanecer fortemente presente em teu pensamento, continuar a servir de farol luminoso para o teu agir? Muito mais do que certas pessoas ainda vivas?

É assim que nos acontece com personagens marcantes, fascinantes, vibrantes, visionárias. É assim que me acontece com dom Aloísio Lorscheider, cujo quarto aniversário de morte (23/12/2007) se aproxima. Tenho uma foto dele colada na minha mesa de trabalho, é verdade, mas é a imagem dele que me vem à mente quando penso na Igreja em que acredito. Por que será?

Indubitavelmente, porque dom Aloísio tinha um perfil próprio, possuía um estilo inconfundível, era uma personalidade. Não se parecia com esta imagem episcopal padronizada e imposta que impera hoje: a dos prelados pomposos, envoltos numa aura de sagrado numinoso, mas sem quase nenhuma irradiação pessoal, donos de um discurso oficioso ensaiado, homologado, genérico e – em última análise – irrelevante para os destinos do nosso mundo. Bispos sem estatura própria, meninos de recado do Grande Pai em Roma, do Santo Padre (que blasfêmia, meu Deus!), cumpridores solícitos de ordens superiores, que nunca dizem o que realmente pensam, mas somente o que são mandados para dizer em nome da Instituição Eclesiástica. Bispos que cavalgam ad nauseam velhos cavalos de batalha como o aborto e a moral sexual (dos leigos, é claro!), mas que se calam diante das maiores atrocidades e injustiças que afligem a nossa sociedade. Bispos que me entediam com o que falam e não me arrastam, pelo seu exemplo, à prática do bem, à transformação do mundo. Ao contrário destes bispos mornos, dom Aloísio era quente, na fala e no testemunho pessoal. Quer ver? Então veja:

Na fala: “Estamos fazendo bonitas palestras, pregando belos retiros [...], mas na realidade, não estamos concluindo nada! As grandes iniciativas realmente relevantes não estão saindo, porque ainda não reconhecemos, de fato [...], a função e a dignidade cristã do leigo e da leiga” (MLA* pp.144-145). Ou que tal isto: “O leigo deve ter sua própria condição dentro da Igreja. Não deveriam ser convidados leigos ‘maquiados’ e sim, leigos-leigos” (MLA p.47). “Sem luta e engajamento, não se chega à felicidade verdadeira! [...] Agora, a grande maioria das pessoas, hoje, espera do recurso ao sagrado, em primeiro lugar, proteção e defesa contra todos os
males. “A motivação religiosa encontra-se muito mais próxima do medo e da insegurança do que da convicção e do compromisso” (MLA p.140). “O que acontece é que os cristãos se tornam cautelosos, não querem se expor. Está desaparecendo a espontaneidade. Para que haja mais espontaneidade deveremos, da parte do episcopado, aceitar a franqueza das pessoas. Um indivíduo que fala com franqueza não quer ofender ninguém, mas quer ajudar: isto está faltando na Igreja!” (MLA p.172). “Foram dois desafios que não foram abraçados: a opção preferencial pelos pobres e a organização das CEBs. É um desastre: O clero não acompanha as CEBs!” (MLA p.85).

Estás vendo? Qual o bispo que, hoje, ousa falar assim?

E no testemunho: Tenho fotos de dom Aloísio visitando casas e casebres no Morro do Teixeira/Castelo Encantado, subindo e descendo – na areia das dunas – os becos de favela, levando fé, esperança e amor aos pobres. Guardo ainda hoje recortes de jornal que mostram o mesmo dom Aloísio em um dos presídios mais perigosos da Ceará, o qual costumava frequentar (Qual o bispo que ainda leva a sério a palavra de Jesus: “Eu estive preso e tu foste me ver”?). Lembro-me como dom Aloísio criou e equipou o Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos na Arquidiocese, para prestar assistência jurídica às populações indefesas, sobretudo aos indígenas (perguntar não ofende: quanto o Arcebispado investe, atualmente, neste trabalho?).

Foi dom Aloísio que patrocinou experiências de formação seminarística inserida no meio popular, fora do Seminário. Também foi ele que conseguiu, por sua iniciativa pessoal, reverter uma ordem vinda do Vaticano para despedir os padres casados que atuavam como professores no curso de Teologia. Para não falar do incentivo importante que ele deu à criação da Conferência Nacional dos Leigos no Brasil – projeto abortado pela CNBB de hoje.

Por tantas palavras e atitudes corajosas e marcantes, a figura de dom Aloísio permanece vivíssima e luminosa para mim. Já não posso dizer a mesma coisa de muitos prelados pasteurizados que hoje desfilam solenemente seus paramentos em torno dos altares até desaparecem, literalmente, na nebulosidade do incenso: às vezes, me lembram os “sepulcros caiados” de quem falava Jesus... – cala-te, boca!

Salve Dom Aloísio, salve-nos!

Bispos que me entediam com o que falam e não me arrastam, pelo seu exemplo, à prática do bem. Ao contrário destes bispos mornos, dom Aloísio era quente, na fala e no testemunho pessoal

Dom Aloísio Leo Arlindo Lorscheider, 8/10/1924 a 23/ 12/2007
(Carlo Tursi- teólogo)

sábado, 24 de setembro de 2011

C u r s o l i v r e n o M o v i m e n t o F a m i l i a r C r i s t ã o

Hans küng:
“em que eu creio”
Grandes teólogos do século XX.

c o m
C a r l o T u r s i

Ementa
Uma síntese do pensamento teológico e da fé pessoal de Hans Küng, nato em 1928, hoje professor emérito de Teologia Ecumênica e presidente da Fundação Éthos Mundial. Merecem destaque suas reflexões mediadoras entre Fé e Razão/Ciências, entre Cristianismo e as grandes tradições religiosas do mundo, entre as confissões cristãs. Foi punido pelo papa João Paulo II com a cassação de sua licença para lecionar por seu livro “Infalível? – Um Questionamento”. Constitui-se, hoje, crítico mais proeminente do que ele chama a “doença” da Igreja Católica: o sistema romano de domínio jurídico universal. – Imperdível para amantes da Teologia.

Às quintas-feiras de out./nov. das 19:00 às 21:00 h
na sede do Movimento Familiar Cristão (Rua Pinto Madeira 801)
1ª aula: 06 de outubro
Informações/inscrições: 3263-2730

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

GRITO DOS EXCLUÍDOS E DAS EXCLUÍDAS




Após mais um ano do “Grito dos excluídos e das excluídas” e tendo participado do mesmo com muito prazer e alegria, não posso deixar de fazer minha reflexão a respeito do que senti, vi e observei e também do que não vi.
O “Grito” foi muito bem organizado e algumas coisas chamaram atenção. A abertura se deu às 08:30, ou seja, desde cedo as pessoas ali reunidas se agrupavam junto ao trio-elétrico, a partir do qual eram dirigidas as atividades, como leituras, orações, cânticos, avisos, depoimentos etc. . Charmosa a apresentação da criançada, alegrando a todos e todas. A presença das pastorais sociais, de diversos grupos e organizações, assim como de pessoas que apóiam estes movimentos populares, as faixas, o colorido das pessoas, a alegria estampada no rosto de todos e a naturalidade com a qual se enfrentava o sol escaldante, tudo isso inspira confiança e a certeza de que vale a pena insistir num projeto que vise a humanização da nossa sociedade. Considero muito positivo o fato que havia a distribuição de sacinhos com água gelada, a fim de refrescar todos e todas que precisavam deste serviço irmão. E ainda: foi bonito ver que haviam sido colocados sacos de plástico, para que ninguém precisasse jogar lixo na pracinha em frente e nos laterais da capela de São Francisco. Ótimo foi ver algumas moças juntando lixo nas ruas por onde passava mais tarde a caminhada: um gesto ecológico de alta qualidade! A comunidade do Lagamar soube-se incluída no “Grito” que sonha com uma sociedade mais igualitária, mas não ficou com aquele lixo no meio da rua como sempre se vê onde há concentrações de muita gente. Parabéns!
Tudo isso vimos, ouvimos, sentimos e muito apreciamos.
Mas permita-me fazer outras observações. É um pouco lamentável ver pouca gente num ato popular desta importância. Não é por falta de aviso por parte da organização. Não é possível que as pessoas que poderiam ou deveriam se interessar possam alegar que não sabiam: este foi o décimo sétimo ano do “Grito”, que nunca aconteceu em outra data a não ser no dia 07 de setembro, que por sua vez nunca deixou de ser um
feriado. E ainda é bom nos lembrar que o “Grito” é um movimento organizado a partir da e apoiada pela própria CNBB e seus órgãos, especialmente aqueles ligados às questões sociais. O Concílio Vaticano II tinha como suas duas afirmações mais fecundas a identificação da Igreja como “Povo de Deus”, e a outra que dizia que o lugar da Igreja é no mundo bem pertinho das pessoas, comprometendo-se especialmente com os empobrecidos e injustiçados, anunciando desta forma o desabrochar do Reino de Deus no meio de nós. As constituições conciliares Lumen Gentium e a Gaudium et Spes têm trabalhado esta temática exaustivamente há cinqüenta anos (!) e inúmeros documentos da Igreja aprofundaram a mesma temática. Pergunto por tanto: por que a quase total ausência por parte do clero, que insiste em não participar!? Sei e sou testemunho de que em muitas paróquias nem é dado o aviso do “Grito”! Penso que o povo tenha ao menos o direito de saber o que acontece no seio da Igreja! Eu gostaria somente que alguém respondesse com seriedade e sinceridade a esta simples pergunta: POR QUE!?

Não nos esqueçamos que Jesus somente ficou quatro vezes num lugar mais alto do que o povo: durante o Sermão da Montanha, mas foi para nos ensinar o novo jeito de viver; na Cruz, mas foi para se doar à humanidade no mais sublime ato de amor; na Ressurreição, mas foi para anunciar que a Vida vence a morte; e, em fim, na subida aos céus, mas foi para nos dizer que Ele está nos esperando na casa do seu Pai que é definitivamente “Pai Nosso”. Jesus nunca ficou “acima” do povo para se distanciar, e sim para se aproximar mais, servindo aos seus irmãos e às suas irmãs, bem ao lado deles e delas.

Fortaleza, sete de setembro de 2011,

Geraldo Frencken

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Grito dos Excluídas e Excluídas de Fortaleza acontece no Lagamar

Grito dos Excluídas e Excluídas de Fortaleza acontece no Lagamar
A décima sétima edição do Grito dos Excluídos e Excluídas em Fortaleza acontecerá na comunidade do Lagamar, bairro São João do Taupe, em Fortaleza, Ceará. A concentração inicial será, às oito horas, na Praça São Francisco. A caminhada percorrerá algumas ruas do Lagamar, encerrando em frente à Igreja Sagrada Família, Praça Padre Pasquale, bairro Pio XII. Este ano o Grito tem como tema, “Pela Vida grita a TERRA. Por direitos todos nós.” O tema quer dar continuidade às questões levantadas pela Campanha da Fraternidade 2011 cujo tema foi “Fraternidade e Vida no Planeta”. 
Por ser um espaço de denúncia e profecia, desta vez, o Grito denuncia a outra face do legado que nos deixarão os megaeventos e projetos colossais que não saem da mídia: os novos estádios, aeroportos e avenidas para a Copa 2014, como a implementação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), e a construção de grandes hotéis. Tais obras ameaçam a vida de integrantes de comunidades dos mais diversos bairros, as quais poderão ser removidas por causa dessas obras.  impactos sociais com a remoção forçada de famílias que serão obrigadas a mudar o rumo de sua história, laços humanos serão cortados. Casas serão derrubadas para que ruas e avenidas sejam alargadas para o Brasil mostrar ao mundo que cumpriu bem o dever de casa e está preparado para receber os tais eventos esportivos. Denunciar a morte, em suas mais variadas faces: dizimação de crianças, jovens, adultos, idosos e a degradação do meio ambiente. Quer denunciar, ainda, a violação dos direitos da população que não tem nenhuma garantia da melhoria na qualidade de vida. Enquanto isso, R$ 9 bilhões do dinheiro público serão gastos com infra-estrutura para esse megaevento; e as Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro; como também a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
O Grito dos Excluídos e Excluídas é um momento de aglutinação das lutas sociais no Brasil. Reúne diversos atores sociais dos movimentos sociais, organizações não governamentais, paróquias e áreas pastorais da Igreja, comunidades e pessoas de boa vontade. Nasceu em 1995 como um gesto concreto da segunda Semana Social Brasileira, evento realizado pela Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB).
Serviço:
Décima sétima edição do Grito dos Excluídos e Excluídas
Horário: 8h00
Local: Praça São Francisco – Comunidade do Lagamar. Próximo ao Sindonibus, Borges de Melo.
Organização: Pastorais Sociais, CEBs e Organismos da Arquidiocese Fortaleza em parceria com movimentos populares e organizações da sociedade civil.
Contatos: Padre Lino Allegri (Pastoral do Povo da Rua) (85) 3270.1486, Emanuel Costa (Comunidade do Lagamar) (85) 8828. 4573, Cássia  (Comunidade Trilha do Senhor) (85) 8813 6991, Francisco Vladimir (Jornalista, membro da Pastoral do Migrante)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

FALECIMENTO DE DOM CLEMENTE ISNARD (1917-2011)



ONTEM, DIA 24 DE AGOSTO DE 2011, FALECEU NO RECIFE DOM CLEMENTE ISNARD, O.S.B. .
Dom Clemente José Carlos Isnard, O.S.B., nasceu no Rio de Janeiro aos 08 de julho de 1917. Professou na Ordem de São Bento aos 11 de julho de 1940 e foi ordenado sacerdote a 19 de dezembro de 1942. Foi nomeado bispo em 23 de abril de 1960 e recebeu a ordenação episcopal em 25 de julho de 1960. Ele participou integralmente do Concílio Vaticano II. Foi bispo de Nova Friburgo. Dedicou grande parte de sua vida à renovação litúrgica na Igreja Católica. Hoje, dia 25 de agosto, Dom Clemente será sepultado no mosteiro de São Bento em Olinda (PE)
Já em idade avançada chamou atenção pela publicação de dois pequenos fascículos: “Reflexões de um bispo sobre as Instituições Eclesiásticas Atuais” e “A experiência ensina o Bispo”, nos quais joga uma luz bastante crítica sobre alguns aspectos cotidianos da Igreja (entre os quais: títulos honoríficos, carreirismo) e sobre alguns temas que a própria Igreja prefere não debater em público (entre os quais: celibato, ordenação de mulheres). Nos ambientes oficiais da Igreja estes escritos foram proibidos de serem publicados, mas mesmo assim Dom Clemente considerava ser a sua obrigação ajudar a todos nós refletirmos sobre aspectos da Igreja que comumente não vêm ao público.

Que Deus receba em seus braços paternos este seu bom servo!
Dom Clemente, muito obrigado! Descanse em paz!
 (Geraldo Frencken)

DOM HELDER

DOM HELDER
Neste sábado, dia 27, completam-se doze anos da morte de Dom Helder Camara. Faz bem refletirmos um pouco juntamente com este “Profeta dos nossos tempos”.
Dom Helder, nascido na cidade de Fortaleza em 07 de fevereiro de 1909, e formado padre no “Seminário da Prainha”, viveu numa época de transformações e, conseqüentemente, tensões. Primeiramente, nos tempos durante e depois da II Guerra Mundial, toda a humanidade estava à procura de uma nova identidade, buscando novos horizontes, porque, como está escrito num mural em Bogotá “Cuando tenía todas las respuestas me cambiaron lãs preguntas.”. Logo em seguida, o nosso país entrou nos assim chamados “anos de chumbo”, ou seja, começava a ser governado pela ditadura militar que reinou de 1964 a 1985.
O Dom não somente viveu nesta época de transformações políticas, sociais e econômicas.  Ele mesmo, movido por uma fé inabalável no Deus do amor, se tornou transformador destas realidades. Em especial tornou-se um dos reformadores da Igreja, dando uma guinada no percurso da história dela durante e a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965). Ele se fez a voz firme e forte em favor de uma igreja mais humana e humanizante, uma Igreja a partir dos pobres, porque esta está em sintonia melhor com o Evangelho de Jesus. Dom Helder escutou e entendeu muito bem o que o Papa João XXIII havia colocado como objetivo para aquele Concílio: que a Igreja entrasse em um contínuo processo de mudança e adaptação, processo este chamado de “aggiornamento”, que significa dizer, ouvindo as sábias palavras do nosso querido pastor Dom Aloísio Lorscheider “que eu devo fazer um esforço permanente de expressar aquilo em que eu creio de forma compreensível para hoje.” Ou seja, na vivência da nossa fé devemos estar atentos aos sinais dos tempos, à realidade que vivemos, ao mundo no qual nos encontramos: fé e vida em plena harmonia. A fé não pode fazer de nós fugitivos deste mundo. Não podemos nos revestir com aquela atitude de Pedro que, ao ver Jesus na sua glória, queria montar logo uma tenda pra ficar pro resto da vida olhando para este belo Jesus esplendoroso, ou então ficar olhando para os altos como faziam os apóstolos quando Jesus foi levado para o céu (cf. Mt. 17, 1-10 e Atos 1, 10-11). Ainda bem que o mestre argumentou que todos descessem, porque ainda havia muito o que fazer, ordenando que olhassem ao seu redor, a fim de que entendessem que este mundo havia de ser transformado e que não se construiria o Reino de Deus, escondendo-se num tenda e se fazendo de anjinho deitado aos pés de Deus sentado em seu trono.
Pois bem, foi isso que Dom Helder fez: desceu da montanha, o que no caso dele significava deixar o palácio episcopal no Recife e ir morar na sacristia da “Igreja Sem Fronteiras” (de fato o testemunho dele não conheceu fronteira alguma!), deixando os incensos e todas as pompas e circunstâncias eclesiásticas para trás, mantendo assim mais facilmente contato com a realidade, especialmente aquela realidade vivida pelos pobres. Daí olhou ao seu redor e encontrou-se com aqueles e aquelas que estavam com fome, com sede, sem moradia, sem roupa, com os doentes e os presos. Agiu assim no Rio de Janeiro, no Recife e em todos os lugares por onde passava. Descobriu que a miséria era a primeira e maior violência que o ser humano está sofrendo e explicitou o que é miséria, dizendo que ela “engloba a sub-habitação, o sub-trabalho, a sub-diversão, a sub-saúde, opressão, dominação, em resumo: sub-vida!” O grande sonho dele era que chegássemos ao “ano 2000 sem miséria que significa dizer: dar um estímulo ao otimismo, uma crença no que o homem quando quer, é capaz de fazer, e ter a certeza de que Deus ajuda!” Neste seu embate ele nos ensinava que “melhor do que o pão é a sua partilha, sua divisão!”
Este seu sonho maior não se realizou, porque sabemos que no Brasil ainda há 16 milhões de pessoas que vivem em miséria, que na Somália morreram nos últimos três meses 27.000 crianças de 0 a 5 anos de fome e assim por diante. Dom Helder dizia: “A fome dos outros condena a civilização dos que não têm fome.” Mas ele tinha uma profunda confiança nos homens e em Deus. O Dom alimentava esta esperança nas longas madrugadas, durante as quais conversava com Deus. Dom Helder não falava alto com seu Criador ou com os dois santos preferidos, Francisco e Vicente de Paulo: ele os escutava, porque sabia que não faz sentido gritar para Deus, pular ou exercendo-se com belos movimentos acrobáticos na frente dEle: tudo isso não adianta se não se sabe escutar a Deus no silêncio, se não O enxerga na pequenez dos mais humildes entre os seres humanos.
Para o Dom, a crença em Deus e nos homens anda junto com a esperança e a confiança. Ele dizia: “Esperança é crer na aventura do Amor, jogar nos homens, pular no escuro confiando em Deus!”
Que bom que Dom Helder esteve no meio de nós. Torna-se necessário procurarmos dar um jeitinho para que ele não desapareça!

Geraldo Frencken

domingo, 24 de julho de 2011

Cuidar

imagem da net
CUIDAR (primeira parte)

Somos cientes de que nossa vida é marcada, entre outras características, pela pressa, pela massificação, pelo descuido e abandono, pelo stress e o seu conseqüente nervosismo que chega às vezes a ser angustiante, pela violência, e, como muita gente afirma, pela falta da presença de Deus na vida das pessoas. Exatamente estas características são ingredientes propícios para nos esquecermos daquilo que deveria ser uma preocupação primordial e constante: o cuidado. Por não sermos cuidadosos(as) o suficiente, vemos que há cada vez mais pessoas vivendo em solidão, que a comunicação verdadeiramente humana continua a diminuir, que a nossa própria vida vai perdendo o seu mais profundo sentido: de estarmos no mundo por causa da relação, do relacionamento que somos convidados a construir com o(s) outro(s) e a(s) outra(s), e, enfim, que o nosso sonho com um mundo melhor pode morrer antes da hora. O cuidado é essencial à nossa vida.

Cuidar, ou ter cuidado, ser cuidadoso(a), em primeiro lugar, é uma atitude, um modo de ser, um jeito de estar no mundo, de se relacionar com o mundo e com tudo que há nele. Não é um ato isolado, algo que se faz de vez em quando, na hora que der, ou na ocasião que se apresentar. Cuidar diz respeito à maneira como a pessoa é, vive, se relaciona. O cuidado caracteriza o ser humano por se tratar de uma preocupação constante, um jeito de deixar claro que a pessoa sabe que é responsável, tanto por si mesma, como pelos outros e por tudo que faz parte da sua vida.

Em segundo lugar, sem este cuidado nós deixamos de ser humanos: tanto nós mesmos precisamos ser cuidados, como também podemos e devemos cuidar dos outros. Como alguém disse: “Devemos cuidar para não frustrar quem nos procura.” Eu acrescento: “Devemos procurar para não frustrar que alguém possa cuidar!” Por meio e através do cuidado mostramos afeto, amor, compaixão para com as outras pessoas: o esposo, a esposa, os filhos, a família, os vizinhos, os amigos, os colegas. E mais: devemos procurar ter o mesmo cuidado, construir um profundo relacionamento para com tudo que faz parte da nossa vida: o trabalho, a escola, o hospital, a rua na qual andamos, seja a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus, a praça onde sentamos ou brincamos, toda a cidade na qual vivemos, a Igreja à qual pertencemos, os animais, as plantas, toda a natureza.

O cuidado dinamiza, aprofunda e dá sentido às relações, à vida, valoriza nossa vida. Através do cuidado mostramos responsabilidade tanto para com todos com quem convivemos, como para com tudo que faz parte da nossa vida.

Enfim, o cuidado abre a porta para a esperança: a esperança em um profundo relacionamento amoroso entre as pessoas, uma relação construtiva entre todos os familiares, amigos, colegas, vizinhos. Este mesmo cuidado dá as necessárias condições para que possamos ter esperança num mundo do trabalho que dignifique a vida do(a) trabalhador(a), esperança em escolas e universidades que se preocupem em construir uma nova sociedade, esperança numa cidade na qual possamos ser felizes, em Igrejas que cuidem de todos com o mesmo amor do Pai, pregado por elas, e, enfim a esperança na natureza que nos sustente e da qual somos convidados a cuidar.

Se quisermos viver, haveremos de cuidar.

Geraldo Frencken

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Puebla: Uma curiosidade e uma pergunta

Puebla - México - Imagem da Net
Em longo e belo pronunciamento “Puebla e a opção pelos pobres”, proferido na Primeira Jornada Teológica do Recife, 06 de agosto de 1998, padre José Comblim nos conta uma história engraçada.
“Eu tinha sido convidado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns para acompanhá-lo em Puebla, porém eu não estava na lista dos teólogos convidados e Dom Paulo não tinha poder para me dar credencial. Assim, tive que entrar clandestinamente no seminário Palafoxiano, edifício em que estava reunida a Conferência. Isso foi possível graças ao frei Gorgulho, o dominicano e exegeta de São Paulo, famoso e muito amigo de Dom Paulo. Acompanhei frei Gorgulho. O seminário estava protegido por três barreiras de jovens pertencentes a um movimento integrista mexicano. Felizmente estes jovens não tinham nenhuma prática desse tipo de função. Chegamos de taxi. Frei Gorgulho dizia aos jovens guardas: ‘Vou para a Conferência’ de uma maneira que não permitia nenhuma dúvida. Os guardas não duvidavam que fosse um dos bispos participantes da assembléia. Eu era simplesmente o servente do ‘sr. Bispo’. Mas agora, como entrar no edifício sem ser identificado pela secretaria da Conferência? Tínhamos descoberto, por trás do seminário, uma pequena porta que dava na cozinha e não estava fechada. Alí ninguém pedia documentos. Entramos pela cozinha, subimos as escadarias e fomos até o quarto de Dom Paulo, onde ficávamos escondidos. Um dia aconteceu o que era inevitável: num corredor encontrei-me com o secretário geral da Conferência, Alfonso Lopez Trujilo, que, naturalmente, me reconheceu imediatamente. É um homem tremendamente violento. É um gigante! Jogou-se contra mim com toda força, agarrou-me pelo pescoço com tanta violência, que só tive tempo de fazer um rápido ato de contrição e de pensar: “Amanhã sai nos jornais a notícia: arcebispo mata sacerdote no seminário Palafoxiano’. Providencialmente apareceu um grupo de bispos e Alfonso Lopez fugiu. Foi assim que fiquei com vida, são e salvo. Quanto ao protagonista, fez uma brilhante carreira eclesiástica, à espera de novas promoções que poderiam levá-lo finalmente ao ponto culminante da hierarquia.”
Ao terminar a palestra, padre José Comblin nos coloca diante da seguinte questão: “Haverá um dia a retomada de Puebla?”
E ele responde:
“Vai depender dos leigos. Muitos leigos que foram ativos nas décadas anteriores sentem-se como que desmobilizados. Muitos já são ex-combatentes, vivendo das saudades dos combates de outrora. Outros estão aí disponíveis, e nós sem saber o que fazer. São milhares de leigos assim desmobilizados no Brasil. Acostumaram-se a esperar da hierarquia sinais e orientações. Aí está o erro. Não olhem mais para a hierarquia, doravante daí não sairá mais nenhuma luz, somente exortações para não pensar, não tomar iniciativas e esperar com paciência.
Não esperem, tomem iniciativas e irão preparar uma Igreja nova para preparar uma sociedade nova, radicalmente diferente daquela que está sendo montada no momento e já caminha para o abismo.
O apelo dirige-se para os jovens. Os grandes projetos nascem na mente de jovens entre 25 e 30 anos. Procurem entre vocês esses jovens que poderão liderar a construção desse mundo novo.”

(Publicada em I JORNADA TEOLÓGICA DO RECIFE”, dedicado a Dom Helder Camara: Igreja do Vaticano II ao 3.º milênio. Avanço ou Retrocesso? 03 a 07 de agosto de 1998. Promoção do Grupo de Leigos Católicos, IGREJA NOVA)

Geraldo Frencken