sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Velhos jovens, jovens velhos; sagrados ou profanos:


Velhos jovens, jovens velhos; sagrados ou profanos: implicações estéticas-religiosas na sociedade da eterna juventude


Fran de Oliveira Alavina
Doutorando em Filosofia na USP. Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP.

Agora que Francisco, o Papa, partiu para Roma, gostaria de considerar dois aspectos. Contudo, antes de qualquer coisa, devo afirmar que sei que as mídias virtuais exigem discursos curtos e sintéticos. Mas, por vezes, buscando-se a rápida comunicação se confunde o simples com o simplório. Poderia reproduzir aqui uma notícia, como fazem muitos daqueles que navegam no mar convidativo das mídias e redes sociais virtuais. Nelas a reprodução, quase infinita, de notícias e imagens, gesta uma “sensação democrática”, uma vez que a comunicação é feita de modo instantâneo, e aparentemente livre, sem censuras. Pode-se comentar, postar, curtir conforme o gosto e a seleção intelectual de cada um. Por isso, os que reproduzem notícias nas redes sociais o fazem de forma frenética, que por vezes me pergunto se o sonho deles não seria serem jornalistas. Se não passariam de jornalistas frustrados, “inconscientes” ou espontâneos. Porém esse frenesi é mais um fruto da já mencionada “sensação de democracia”. Democracia completa que para muitos só a realidade virtual poderia oferecer, assim o espaço social cede lugar ao espaço virtual. Nesse registro, não devo apenas me conceber como sujeito democrático, mas devo também me sentir desse modo. Mas tal só é possível, se os outros me sentirem, é quando os outros me sentem como tal que eu também me sinto, reconhecendo-se não a partir de si, mas dos outros. Reconhecimento que se dá no campo multissensorial, por isso o sentir é deslocado de si para os outros, de dentro pra fora, da experiência pessoal para aquela coisificada das sensações virtuais, onde pouco, ou quase nada importam as diferenças entre natural e artificial. Informando sempre tudo, a todos, mesmo que com o rápido esgotamento do frenesi da novidade. Comunicação rápida que vai de encontro à fruição do consumismo estético e estetizado dos "cults" de plantão. Mas, é preciso lembrar: deve-se ter "a paciência do conceito". Mesmo que isso possa parecer um pedantismo filosófico, é salutar não esquecer. Uma vez que, os "cults" de plantão, estão sempre prontos, embora não muito aptos, para emitir uma opinião, que em seus entendimentos é assaz douta e elaborada. Mas, parece-me, é tudo isso só em seus entendimentos. Contudo deixemos isso de lado, e voltemos ao que fora dito no começo. Alerto, porém trata-se de dois paradoxos, que
especulo que nem a mais viva imaginação dialética possa desfazer ou diluir, tamanha é a contradição.
1) A jornada mundial era da juventude. Porém, jovem era o Papa. Enquanto os jovens propriamente ditos, estavam contentes, eufóricos e imersos na histeria do espetáculo religioso. Tamanho era o fluxo das sensações, que não sem motivo se registrou um aumento relevante no número de frequentadores das principais boates gays da capital carioca, conforme foi verificado por uma jornalista de um grande jornal de São Paulo. Ora, isso ocorreu, pois era preciso externar toda uma excitação que opera no registro da falta de finalidade, tentativa de sentir de uma forma completa todo o frenesi midiático causado pela jornada, ainda que a vigília da última noite da JMJ se assemelhasse em muitos aspectos com uma “rave”. (Nesse ponto do texto, alguns dos leitores podem pensar serem descabidas e até “pecaminosas” as comparações, contudo elas são coerentes com uma nova forma de religiosidade que faz da fé um espetáculo. Para os movimentos religiosos estetizados de hoje, o único discurso compreensível é aquele que une fé e espetacularização, ritual litúrgico e show. Se assumem descaradamente, embora sem confessar, as formas mais profanas para comunicar o sagrado, devem aceitar a pertinência das comparações). Mas não poderia ser diferente, já que a maior parte deles, dos jovens, eram seguidores da Renovação Carismática. Portanto eram, em verdade, velhos, caducos, ultrapassados. O Papa velho era jovem, e os jovens eram velhos afetados por uma senilidade atroz. Daquelas que enxergam no passado, qualquer que seja a época, algo bom, embora nunca o tenha experimentado, posto que jovens. Ademais, como tais jovens vão se adequar ao discurso da "simplicidade" e "humildade", se são “carismáticos de carteirinha”? Ou seja, integrantes de um movimento religioso classe-média, caricatura de pequeno burguês, ufanista do status quo, eufórico e alienado. Pois, ao renderem-se ao formato que faz de tudo espetáculo, são o anúncio, parece-me quase que profético, do fim do senso do sagrado, e do senso de coletividade e crítica do presente, que a Religião ainda poderia portar, mas ao assumir a forma midiática da renovação carismática acaba perdendo. Que me desculpem meus colegas carismáticos, não estou pondo em dúvida a fé que vocês tanto se esforçam em demonstrar publicamente, ainda que de modo estetizado, onde o valor que impera é a beleza, mesmo que artificial. Mas vocês são, talvez, aquilo de mais danoso que a Religião pode gestar contra si mesma: a sua completa adequação ao status quo. Em vocês, após o anúncio “da morte de Deus”, vejo o começo do fim do senso do sagrado e do simbólico religioso. Degenerescência da religiosidade, que só um tempo vazio como
o nosso presente poderia gestar. Tempo de enfermidade das nossas capacidades coletivas de dotar de sentido a realidade social e a experiência pessoal, tempo de enfraquecimento dos liames sociais, época dos mais atrozes narcisismos. Uma sociedade doentia, com enfermidades nas suas formas mais elementares, que vive em função das próprias patologias que gera, não poderia gerar senão formas também doentias de religiosidade. Sociedade patológica, formas de religiosidades patológicas. Não há fármaco possível, para o doente que não quer se curar, mas, pelo contrário, alimenta-se de suas patologias: tal é a realidade atual.
2) Se de um lado assistia-se a histeria dos religiosos, das massas que participam dos espetáculos estetizados da fé, do outro assistia-se a histeria de ateus e outros movimentos, como aquele que chocou muitos com usos "performáticos" das imagens sacras, fazendo daquilo que é objeto de veneração, objeto de escárnio estético e político. Tais atos não me chocaram, tanto quanto se chocam alguns amigos e colegas, ao descobrirem que apesar de minha formação filosófica, rezo e vou à missa, e para maior espanto: faço promessas. Eles se chocam com isso, e depois muitos acabam por adotar o discurso ridicularizador. Mas, não me choquei tanto como eles, pelo uso “performático” das imagens. Contudo, espantei-me e fiquei chocado ao perceber que grupos tão distantes, compartilhavam da mesma histeria. Como poderia ocorrer tal semelhança? Pensei que a vinda do Papa atingisse só a histeria dos católicos, mas jamais imaginaria que Francisco, o Papa, também atiçaria a histeria dos laicos e ateus. Sempre se dizendo sóbrios ante o fanatismo religioso, amigos da Razão e do bom-senso, já que a Religião é o avesso da razão, a superstição completa. Assim, depois de espantar-me ao ver ateus e católicos compartilharem a mesma histeria, me dei conta, já desconfiava, que o discurso contra religioso é tão religioso quanto o objeto que combate. Por isso, vivemos o tempo de tantas “religiões”, pequenas seitas, mesmo que se diga não tratar-se de religião. Se a Religião assume as formas do discurso profano, o profano por sua vez assume as formas do discurso religioso. Por isso, há formas, modos e modelos próprios da Religião e do sagrado, em espaços laicos e “profanos”. Desse modo, há a "religião das letras", da “luz soberana da razão", bem como aquela "religião dos messianismos estéticos e artísticos", singularmente exemplificada nas chocantes instalações e intervenções artísticas da JMJ. Há também a "religião dos falsos e fáceis revolucionários", que como os jovens caducos da JMJ, querem reviver o passado que nunca experimentaram, mas que lhes foi contado de forma saudosista e utopista: o maio de 68 de seus pais e avós. A fim de também eles expressarem um "dogma", que embora dito por "revolucionários
laicos", não deixa de ser tão crível de fé, quanto aquele das religiões. Tal dogma se expressa, de modo resumido, na seguinte fórmula: "creio e afirmo que vivi um momento histórico". Ora, isso dirão quer os jovens da JMJ, quer aqueles que chocaram os de sensibilidade rasa e aflorada. Mas, não poderia ser diferente, dirão as mesmas palavras, expressarão os mesmo dogmas, pois são vítimas da mesma histeria. Forte histeria esta, pois contagia e se expressa em ateus e não ateus, jovens velhos e velhos jovens. No fundo, os que buscaram chocar são tão caducos quantos os jovens da JMJ. Pois, portadores de um discurso que tem sua gênese no "séculos das luzes", ultrapassado e tão antigo quanto a expressão “os homens são livres e iguais por natureza”, “a religião é fanatismo e obscurantismo, somente a luz da Razão é capaz de debelar as trevas criadas pela fé”. Assim, repetem os mesmos velhos argumentos contra a Religião, como se fossem dogmas atemporais. Porém, não reconhecem que tais argumentos não servem para barrar ou se contrapor ao retorno do teológico-político, que assumindo a forma estetizada, seduz a muitos, que cotidianamente e naturalmente já estão apáticos. Desse modo, jovens da JMJ e atores do choque e do escândalo, gozam da mesma histeria e senilidade. Aparentemente tão distantes, porém essencialmente tão próximos. Vocês tem cheiro de mofo, respiram dogmas, por isso se abraçam ao se afastarem. Só resta, pois, abrir a janela e deixar um ar novo entrar. Pode ser que desse modo, ao menos, o cheiro de mofo seja menor, uma vez que não pode ser completamente retirado.
 Por fim, desculpem se o texto é longo, mas é preciso não confundir o simples com o simplório.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

PADRE CASADO QUESTIONA IGREJA SOBRE CELIBATO

Decisões sempre causam sofrimentos. Afinal, são escolhas, sendo necessário deixar algo para trás. Geraldo Frencken, de 67 anos – “bem vividos”, como ele mesmo acrescenta –, mudou da água para o vinho, embora este último também já fizesse parte de sua vida sacerdotal. Deixou o exercício de padre para casar.
E, por mais inusitado que seja, não é raro ver casos parecidos pelo Brasil. O mesmo já aconteceu com outros sete mil sacerdotes que solicitaram no país a dispensa do sacramento da ordem em troca do matrimônio. O dado é do Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados. No Ceará, estima-se que mais de 100 padres tenham feito a mesma escolha.
O holandês Geraldo Frencken, que mora em Fortaleza, decidiu mudar de vida em 1999.Foi sacerdote durante 23 anos. Em Fortaleza, atuou na Paróquia São Pedro e São Paulo, responsável pelos bairros Jardim Iracema, Padre Andrade, Quintino Cunha e Olavo Oliveira.
Holandês Geraldo Frencken fez uma grande escolha na vida (FOTO: Arquivo pessoal)
Holandês Geraldo Frencken teve de fazer uma grande escolha na vida (FOTO: Arquivo pessoal)
A mudança, entretanto, veio acompanhada de outros fatores, além do desejo de construir uma vida a dois. Preferiu não dar continuidade ao sacerdócio, por divergir de algumas determinações da Igreja. O casamento acabou tornando-se consequência.
“É uma mistura de fatores. O celibato [viver sem se unir em matrimônio ou relacionamento] é um assunto que mexe com as pessoas. Eu estava em conflito com essa questão e com algumas maneiras de a Igreja se portar diante de várias causas ligadas ao mundo. Isso fez com que a minha continuidade no ministério ficasse complicada”, conta.
Celibato
São quase 900 anos (desde 1139, no Concílio de Latrão) de história em que padres não podem se casar. O tema ainda é tabu, considerado inaceitável e proibido na sociedade.
Casado há 14 anos com Claudete da Silva Morais, Frencken defende o celibato opcional. “A primeira missão de cada ser humano é ser fiel a si mesmo. Não faz sentido, e causa sofrimento inútil levar uma vida que não seja verdadeira. Devemos ser sinceros conosco, a fim de podermos construir relacionamentos com outras pessoas, baseados nos valores essenciais do evangelho e de qualquer convívio humano”, ensina.
Frencken, casado há 14 anos, defende o celibato opcional (FOTO: Arquivo pessoal)
Frencken, casado há 14 anos, defende o celibato opcional (FOTO: Arquivo pessoal)
Ainda de acordo com o padre, o celibato foi uma norma criada pelo homem e, justamente por causa disso, passível a mudanças. “Essa norma não vem do evangelho. Com o evangelho não se mexe. Mas, se a decisão foi definida por seres humanos, por que a Igreja continua com tanta dureza em relação a nós e não revê a sua posição?”, indaga.
A dureza a qual se refere mina o sonho de poder unir a vida matrimonial com aquela à qual também é apaixonado, na Igreja. As mudanças não trouxeram medo para Frencken. O sentimento, na verdade, foi um misto de alegria e sofrimento. “Cada escolha envolve perdas. Perdemos algumas coisas e ganhamos muitas outras. É um processo que não para. Você vai sofrendo, vai amando e vai acrescentando certas coisas na sua vida”, explica.
Preconceitos
Geraldo sofreu preconceitos devido à opção de se casar. Há certos setores dentro da Igreja que o olham com desprezo. “Começam a aparecer coisas tristes em razão das posturas de certas pessoas. Olham como se fôssemos bichos de sete cabeças. Nós temos menos problemas com a Igreja do que a Igreja tem conosco”.
O preconceito também se mostrou presente quando ensinava no Seminário da Prainha. De 2005 a 2009, ministrou aulas de Teologia Pastoral, Trindade e história da música. Foi demitido por ser padre casado. “Fui demitido pela direção da Arquidiocese de Fortaleza. Lamento até hoje, porque tinha bons relacionamentos. Nunca causei escândalos. Para mim, escandalosas são as pessoas que maltratam os pobres”, lamenta.
Trabalhos
Por parte da sociedade em geral, e da família, não há – e nem houve – problemas, como conta. Afinal, o [sempre] padre continua desempenhando papéis belíssimos e atuantes: dá assistência a comunidades carentes na capital cearense e é presidente do Movimento dos Padres Casados no Ceará (MPC).
“Somos muito bem aceitos pelo povo em geral. Nas comunidades, a gente conversa, estuda e faz encontro. Tudo numa boa. Eu e minha esposa pertencemos à Igreja e nos fazemos presentes em alguns lugares mais necessitados”, diz.
As experiências trazidas pela Igreja foram milhares, sempre lembradas com felicidade por ele. “Passei por experiências profundas nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Nelas, o povo faz a Igreja acontecer. A Igreja passa a ser do povo e não dos padres”.
Sempre padre
As boas recordações e os ensinamentos diários são os principais motivos de os padres casados não gostarem do termo “ex-padre”. Uma vez padre, sempre padre. “Prefiro ‘padre casado’. O sacerdócio não passa. Você não é diminuído por casar. É uma escolha. Creio que todo ser humano busca, durante toda a vida, sua identidade. É um belo, rico e contínuo processo”, finaliza.
Enquanto a Igreja vive o dilema, acompanhada por sacerdotes mais conservadores, os padres que se tornaram maridos comemoram a companhia feminina no dia-a-dia, que não deixou de ser santo. Lamentam, no entanto, não poderem vestir a batina com umaaliança no dedo anular da mão esquerda. E, subir ao altar, com a companheira, apenas para dizer um “sim” diante de outro padre.
 em Fortaleza | 21/08/2013

terça-feira, 20 de agosto de 2013

“ N e u r a s e u c a r í s t i c a s ”

      Carlo Tursi, - teólogo
                          
Em nome da verdade e do bom senso, é preciso admiti-lo: Clérigos e leigos católicos estão indo longe demais em sua ânsia – a princípio, justificada – de revalorizar a comunhão eucarística. Pior: Estão errando o alvo! A forma se sobrepõe ao conteúdo, o secundário assume o lugar do primordial, a obsessão substitui a serenidade. Senão, vejamos:
Testemunhei, durante missa em conhecida paróquia da capital cearense, um sacerdote jovem (sic!) instar os fiéis que (ainda) recebem a hóstia consagrada com a mão para verificarem se, após o consumo da partícula, eventuais migalhas da mesma não permaneciam grudadas na palma da sua mão: Seria preciso – assim o prelado – consumi-las uma por uma, já que até o menor farelo branco conteria o Cristo Eucarístico por inteiro! Fiquei estarrecido. Pensei: Onde foi que esse padre estudou Teologia? Quem teria ensinado a ele tamanho disparate? Mas o meu queixo caiu mesmo na hora em que uma moça passou por mim na fila da comunhão “catando” literalmente invisíveis restos eucarísticos da palma da mão dela, colocando-os na sua boca! Meu filho de 18 anos, também assistindo à cena, cochichou para mim: “Isso aí é neura, viu!”
No que pese a irreverência da expressão, tive que concordar com ele. Para começar: Se em cada migalha da hóstia (pozinho de farinha? molécula?) está contido o Cristo inteiro, quantos “Cristos inteiros” terá consumido a pessoa que comeu toda a partícula? Mais: Se Cristo não é parcelado, como “Ele” poderia “sobrar” após ter sido consumido? Na verdade, estes raciocínios – se é que raciocinar ainda possa ser considerado lícito para um católico... – só pretendem mostrar a que contradições absurdas conduz uma compreensão material, isto é, substancialista da presença real de Jesus no símbolo eucarístico. Por presumirem que a consagração das espécies sobre o altar possa produzir – como se fórmula mágica fosse – a sua transformação substancial, fazendo aparecer – no lugar do pão e do vinho – o corpo e o sangue de Jesus é que muitos fiéis desenvolveram, sob a orientação de clérigos ainda reféns da Contrarreforma, hábitos reverenciais obsessivos: não mastigar a hóstia na boca (será que o “corpo de Cristo” pode sentir dor?!), não comer nada em casa antes da missa (enquanto o apóstolo Paulo se sentiu à vontade para sugerir aos coríntios que comessem em casa antes de participar da ceia comunitária!), receber a hóstia em posição genuflexa e sobre a língua (ao contrário do que fez Jesus com os seus discípulos na Última Ceia!), guardar a partícula consagrada após o culto em receptáculos de ouro, adorando-a por horas seguidas (como se Jesus quisesse ser adorado como um objeto numinoso...). Foi o caráter compulsivo destas formas devocionais católicas e o agudo sentimento de culpa do devoto em caso de sua omissão que já levaram Sigmund Freud a compara-las às neuroses obsessivas...

É forçoso admiti-lo: Os defensores do dogma da transubstanciação alimentam nos fiéis uma consciência mágica própria da fase infantil, permitindo uma materialização grotesca, no imaginário católico popular, do mistério da fé. Em que consiste, no entanto, a experiência essencial desse mistério? Ora, conforme palavras do próprio Mestre trata-se de fazer isso “em memória” d’Ele, ou seja, comer o pão (de verdade!) e beber o vinho (de verdade!) para assim trazer presente, em meio à assembleia dos discípulos, o Seu espírito, a essência de Sua vida e mensagem que foi a autodoação, a auto-entrega, o compartilhar-se com os outros, o ser para os outros. É esta a verdadeira presença real – e onde este espírito não se fizer presente na mente dos fiéis, ali inexistem eucaristia, sacramento e comunhão com Jesus, por mais que alguém se arraste de joelhos pelo chão da igreja... Não são as formas reverenciais e a quantidade de incenso que revelam o sagrado! Não somos fetichistas que gozam só ao olhar o objeto de sua devoção! Não tem comunhão com Cristo quem não comunga com seu espírito, sua essência expressa no gesto do Lava-pés: Ao recebermos o símbolo eucarístico do corpo e do sangue de Jesus, estamos alimentando espiritualmente a nossa (sempre fraca) disposição para servir ao próximo, partilhar com os outros o que temos e nos comprometer com o melhoramento de uma sociedade tão desigual como é a nossa. Este é o autêntico mistério da fé: que o Cristo Espiritual que se oferece a nós em forma de alimento seja capaz de – ainda hoje – mover os nossos corações a se abrirem para os grandes desafios do nosso momento histórico, enchendo-nos de fé, esperança e amor para dar (e não para vender). Uma compreensão falsa da presença real, ao contrário, vê o Cristo materializado na substância da partícula, fala inapropriadamente em “milagre eucarístico” e espera da ingestão de Jesus, em primeiro lugar, benefícios para si próprio, sejam eles psicológicos (paz de espírito, ausência de conflito, esquecimento dos problemas reais) ou físicos (saúde, proteção contra a violência, prosperidade). O caráter ilusório, quase delirante dessas noções precisa ser trazido à luz – “para o nosso bem e de toda a Santa Igreja”.                                                          

domingo, 28 de julho de 2013

Com a palavra, o Papa Francisco


Rodolpho Motta Lima*


Com a tranquilidade e a isenção de quem não se filia a nenhuma igreja, qualquer que seja o significado que se queira dar ao termo, pretendo somar minhas palavras às tantas que já se proferiram em função da vinda do Papa ao Brasil para a “Jornada Mundial da Juventude”.
O novo Pontífice é, inegavelmente, um papa diferente, que marca sua presença, no pouco tempo em que chefia os católicos do mundo, por características de simplicidade, informalidade e simpatia. Não se pode discutir isso, como não se pode deixar de perceber que nele se depositam grandes esperanças no sentido de que a Igreja por ele comandada possa reencontrar-se com as suas origens. Mas para que as esperanças venham a se tornar realidade é preciso transformar palavras em ações.
O Papa Francisco assumiu em meio a uma forte crítica aos desmandos de muitos dos cardeais, bispos e padres , envolvidos em desconfortáveis episódios de pedofilia ou em tenebrosas transações financeiras. Tudo indica que a inusitada renúncia do seu antecessor tenha sido motivada pela necessidade premente de colocar ordem na casa católica, sob pena de ver-se a Igreja envolvida em uma avassaladora onda de descrédito talvez nunca presenciada nos tempos mais recentes.    
O desapego do novo Papa às coisas materiais é um belo símbolo para essa reorganização. Seu desejo de, sempre que possível, estabelecer ligação direta com o povo é mesmo o que todos desejam ver em alguém da sua representatividade. Não sendo um dos seus fiéis, nem por isso deixo de perceber como será importante que essas posturas e ações individuais sirvam de motivação para muitos católicos (e não católicos) que andam por aí.
Francisco tem textos irrepreensíveis quando condena, por exemplo, o endeusamento que se faz das estatísticas e do marketing.  Creio que, nessa crítica, ele demonstra reconhecer que ambos prestam desserviço à verdade, seja através dos sofismas que se criam com os números, seja por meio das mentiras que se semeiam com as palavras.
O Papa não desdenha a importância do Estado como elemento relevante na construção de práticas sociais mais justas, para uma sociedade que ele entende como partícipe de uma civilização “consumista, hedonista e narcisista”, notabilizada pelo processo de exclusão que leva  pessoas a serem descartáveis.    
Em recente pronunciamento, afirmou o Papa: “Criamos novos ídolos. O culto ao bezerro dourado de antigamente encontrou uma imagem nova e insensível no culto ao dinheiro e na ditadura de uma economia que não tem rosto e carece de qualquer objetivo verdadeiramente humano”. E , mais adiante, acrescentou: “O desequilíbrio resulta de ideologias que preservam a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, e assim negam o direito do controle aos Estados, que estão por sua vez encarregados de zelarem pelo bem comum”.  Irretocável !
Externando seu posicionamento sobre a globalização, diz o Papa que ela é “essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana. Em última instância, é uma maneira de escravizar os povos”.  Falando sobre sistemas econômicos, ele diz:  "Todos pensam que a Igreja é contra o comunismo; mas é tão contra esse sistema quanto ao do liberalismo econômico de hoje, selvagem. Isso também não é cristianismo, não podemos aceitá-lo. Temos que buscar a igualdade de oportunidades e de direitos, lutar por benefícios sociais, aposentadoria digna, férias, descanso, liberdade de associação. Todas essas questões dizem respeito à justiça social".
São palavras bem claras. O que se espera, agora, é que não se percam, que não sejam levadas pelo vento do esquecimento, que se transformem em algo capaz de influir nos destinos dos homens. A Igreja do Papa Francisco tem muitos débitos para com a Humanidade. A história nos revela momentos em que talvez tivesse sido melhor que ela não existisse. 
Cabe ao Papa um papel relevante no momento por que passa a sociedade humana, repleta de injustiças e indignidades. Ele pode – e deve – dar respostas práticas à altura de suas apreciadas atitudes e palavras. Pode – e deve – oxigenar sua Igreja com a execração definitiva dos que a tem enxovalhado nos últimos tempos, inclusive no tocante ao metafórico “culto ao bezerro de ouro de antigamente”. Pode - e deve – exigir dos seus fiéis participação integral no sentido da construção de uma sociedade justa, digna, humana, liberta dos mesquinhos interesses egoístas.
Falou-se muito , e ainda se fala, de uma participação dúbia do Papa Francisco por ocasião da ditadura argentina, quando, ao que  dizem os seus críticos, teria tido comportamentos no mínimo omissos diante da repressão. E alguns estudiosos das coisas do Vaticano consideram-no de perfil conservador em relação a aspectos doutrinários  da própria Igreja – como o aborto, a eutanásia, o casamento gay, o celibato dos padres ou o divórcio, por exemplo.
É, pois, esperar para ver. O momento  é único para a renovação da Igreja. Seu Papa está com a palavra. Mas o que os homens de bem – religiosos ou não  - realmente desejam é que ela corresponda aos posicionamentos trancritos acima, como instrumento de reflexão sobre os verdadeiros males da socidade humana de hoje. Ouvimos pouco sobre isso em sua visita ao Brasil.  Falar contra a corrupção virou moda e é um mantra tão óbvio  em nosso país que os próprios  corruptos e fraudadores se autoelegem paladinos da moralidade.  É só acompanhar as recentes matérias da midia alternativa – a que não frauda nem manipula – para perceber como as falcatruas respingam para todo lado...
Se a voz do Papa será ou não efetivamente direcionada para a verdadeira opção pelos miseráveis, pobres e famintos do mundo, pelos explorados e excluídos do planeta, é o que todos saberemos nos próximos tempos.      
 *Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Texto de Leonardo Boff


Contra as tramóias da direita: sustentar a Dilma Roussef

07/07/2013
É notório que a direita brasileira especialmente aquela articulação de forças que sempre ocupou o poder de Estado e o tratou como propriedade privada (patrimonialismo), apoiada pela midia privada e familiar, estão se aproveitando das manifestações massivas nas ruas para manipular esta energia a seu favor. A estratégia e fazer sangrar mais e mais a Presidenta Dilma e desmoralizar o PT e assim criar uma atmosfera que lhes permite voltar ao lugar que por via democrática perderam.
Se por um lado não podemos nos privar de críticas ao governo do PT (e voltaremos ao tema), mas críticas construtivas, por outro, não podemos ingenuamente permitir que as transformações politico-sociais alcançadas nos últimos 10 anos sejam desmoralizadas e, se puderem, desmontadas por parte das elites conservadoras. Estas visam a ganhar o imaginário dos manifestantes para a sua causa que é inimiga de uma democracia participativa de cariz popular.
Seria grande irresponsabilidade e vergonhosa traição de nossa parte, entregar à velha e apodrecida classe política aquilo que por dezenas de anos  temos construido, com tantas oposições: um novo sujeito histórico,  o PT e partidos populares, com a inserção  na sociedade de milhões de brasileiros. Esta classe se mostra agora feliz com a possibilidade de atuar sem máscara e mostrando suas intenções antes ocultas: finalmente, pensa, temos chance de voltar e de colocar esse povo todo que reclama reformas, no lugar que sempre lhe competiu historicamente: na periferia, na ignorância e no silenciamento. Aí não incomoda nem cria caos na ordem que por séculos construimos mas que, se bem olhrmos, é ordem na desordem ético-social.
Esta pretensão se liga a algo anterior e que fez história. É sabido que com a vitória do capitalismo sobre o socialismo estatal  do Leste europeu em 1989, o Presidente Reagan e a primeira ministra Tatscher inauguraram uma campanha mundial de desmoralização do Estado, tido como ineficiente e da política como empecilho aos negócios das grandes corporações globalizadas e à lógica da acumulação capitalista. Com isso visava-se a chegar ao Estado mínimo, debilitar a sociedade civil e abrir amplo espaço às privatizações e ao domínio do mercado, até conseguir a passagem de uma sociedade com mercado para uma sociedade de puro mercado no qual tudo, mas tudo mesmo, da religião ao sexo, vira mercadoria. E conseguiram. O Brasil sob a hegemonia do PSDB se alinhou ao que se achava o marco mais moderno e eficaz da política mundial. Protagonizou vasta privatização de bens públicos que foram maléficos ao interesse geral.
Que isso foi uma desgraça mundial se comprova pelo fosso abissal que se estabeleceu entre os poucos que dominam os capitais e as finanças e a grandes maiorias da humanidade. Sacrifica-se um povo inteiro como a Grécia, sem qualquer consideração, no altar do mercado e da voracidade dos bancos. O mesmo poderá acontecer com Portugal, com a Espanha e com a Itália.
A crise econômico-financeira de 2008 instaurada no coração dos países centrais que inventaram esta perversidade social, foi consequência deste tipo de opção política. Foram os Estados que tanto combateram que os salvaram da completa falência, produzida por suas medidas montadas sobre a mentira e a ganância (greed is good), como não se cansa de acusar o prêmio Nobel de economia Paul Krugman. Para ele, estes corifeus das finanças especulativas deveriam estar todos na cadeia como criminosos. Mas continuam aí faceiros e rindo.
Então, se devemos criticar  a nossa classe política por ser corrupta e o Estado por ser ainda, em grande parte, refém da macro-economia neoliberal, devemos fazê-lo com critério e senso de medida. Caso contrário, levamos água ao moinho da direita. Esta se aproveita desta crítica, não para melhorar a sociedade em benefício do povo que grita na rua, mas para resgatar seu antigo poder político especialmente, aquele ligado ao poder de Estado a partir do qual garantia seu enriquecimento fácil. Especialmente a mídia privada e familiar, cujos nomes não precisam ser citados, está empenhada fevorosamente neste empreitada de volta ao  velho status quo.
Por isso, as demonstrações devem continuar na rua contra as tramóias da direita. Precisam estar atentas a esta infiltração que visa a mudar o rumo das manifestações. Elas invocam a segurança pública e a ordem a ser estabelecida. Quem sabe, até sonham com a volta do braço armado para limpar as  ruas.
Dai, repetimos, cabe reforçar o governo de Dilma, cobrar-lhe, sim,  reformas políticas profundas, evitar a histórica conciliação entre as forças em tensão e o oposição para juntas novamente esvaziar o clamor das ruas e manterem um status quo que prolonga  benefíciois compartilhados.
Inteligentemente sugeriu o analista politico Jeferson Miolo em Carta Maior (07/7/2013):”Há uma grave urgência política no ar. A disputa real que se trava nesse momento é pelo destino da sétima economia mundial e pelo direcionamento de suas fantásticas riquezas para a orgia financeira neoliberal. Os atores da direita estão bem posicionados institucionalmente e politicamente…A possibilidade de reversão das tendências está nas ruas, se soubermos canalizar sua enorme energia mobilizadora. Por que não instalar em todas as cidades do país aulas públicas, espaços de deliberação pública e de participação direta para construir com o povo propostas sobre a realidade nacional, o plebiscito, o sistema político, a taxação das grandes fortunas e do capital, a progressividade tributária, a pluralidade dos meios de comunicação, aborto, união homoafetiva, sustentabilidade social, ambiental e cultural, reforma urbana, reforma republicana do Estado e tantas outras demandas históricas do povo brasileiro, para assim apoiar e influir nas políticas do governo Dilma”?
Desta forma se enfrentarão as articulações da direita e se poderá com mais força reclamar reformas políticas de base que vão na direção de atender a infra-estrutura reclamada pelo povo nas ruas: melhor educação, melhores hospitais públicos, melhor transporte coletivo e menos violência na cidade e no campo.
Leonardo Boff não é filiado ao PT, é teólogo e escritor, da Comissão da Carta da Terra

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O inferno urbano e a política do favor, clientela, tutela e cooptação



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Sexta, 05 de julho de 2013

Marilena Chaui: O inferno urbano e a política do favor, clientela, tutela e cooptação

"Os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)?", escreve Marilena Chaui, filósofa e professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em artigo publicado por Viomundo, 27-06-2013.
Segundo ela, "os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?"
Eis o artigo.
Observações preliminares
O que segue não são reflexões sobre todas as manifestações ocorridas no país, mas focalizam principalmente as ocorridas na cidade de São Paulo, embora algumas palavras de ordem e algumas atitudes tenham sido comuns às manifestações de outras cidades (a forma da convocação, a questão da tarifa do transporte coletivo como ponto de partida, a desconfiança com relação à institucionalidade política como ponto de chegada) bem como o tratamento dado a elas pelos meios de comunicação (condenação inicial e celebração final, com criminalização dos “vândalos”) permitam algumas considerações mais gerais a título de conclusão.
O estopim das manifestações paulistanas foi o aumento da tarifa do transporte público e a ação contestatória da esquerda com o Movimento Passe Livre (MPL), cuja existência data de 2005 e é composto por militantes de partidos de esquerda. Em sua reivindicação especifica, o movimento foi vitorioso sob dois aspectos: 1. conseguiu a redução da tarifa; 2. definiu a questão do transporte público no plano dos direitos dos cidadãos e, portanto, afirmou o núcleo da prática democrática, qual seja, a criação e defesa de direitos por intermédio da explicitação (e não do ocultamento) dos conflitos sociais e políticos.
O inferno urbano
Não foram poucos os que, pelos meios de comunicação, exprimiram sua perplexidade diante das manifestações de junho de 2013: de onde vieram e por que vieram se os grandes problemas que sempre atormentaram o país (desemprego, inflação, violência urbana e no campo) estão com soluções bem encaminhadas e reina a estabilidade política? As perguntas são justas, mas a perplexidade, não, desde que  voltemos nosso olhar para um ponto que foi sempre o foco dos movimentos populares: a situação da vida urbana nas grandes metrópoles brasileiras.
Quais os traços mais marcantes da cidade de São Paulo nos últimos anos e que, sob certos aspectos, podem ser generalizados para as demais? Resumidamente, podemos dizer que são os seguintes:
– explosão do uso do automóvel individual: a mobilidade urbana se tornou quase impossível, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura com um sistema viário destinado aos carros individuais em detrimento do transporte coletivo, mas nem mesmo esse sistema é capaz de resolver o problema;
– explosão imobiliária com os grandes condomínios (verticais e horizontais) e shopping centers, que produzem uma densidade demográfica praticamente incontrolável além de não contar com uma redes de água, eletricidade e esgoto, os problemas sendo evidentes, por exemplo, na ocasião de chuvas;
 aumento da exclusão social e da desigualdade com a expulsão dos moradores das regiões favorecidas pelas grandes especulações imobiliárias e o conseqüente aumento das periferias carentes e de sua crescente distância com relação aos locais de trabalho, educação e serviços de saúde. (No caso de São Paulo, como aponta Hermínia Maricatto, deu-se a ocupação das regiões de mananciais, pondo em risco a saúde de toda a população); em resumo: degradação da vida cotidiana das camadas mais pobres da cidade;
 o transporte coletivo indecente, indigno e mortífero.  No caso de São Paulo, sabe-se que o programa do metrô previa a entrega de 450 k de vias até 1990; de fato, até 2013, o governo estadual apresenta 90 k. Além disso, a frota de trens metroviários não foi ampliada, está envelhecida e mal conservada; além da insuficiência quantitativa para atender a demanda, há atrasos constantes por quebra de trens e dos instrumentos de controle das operações. O mesmo pode ser dito dos trens da CPTU, que também são de responsabilidade do governo estadual.
No caso do transporte por ônibus, sob responsabilidade municipal, um cartel domina completamente o setor sem prestar contas a ninguém: os ônibus são feitos com carrocerias destinadas a caminhões, portanto, feitos para transportar coisas e não pessoas; as frotas estão envelhecidas e quantitativamente defasadas com relação às necessidades da população, sobretudo as das periferias da cidade; as linhas são extremamente longas porque isso as torna mais lucrativas, de maneira que os passageiros são obrigados a trajetos absurdos, gastando horas para ir ao trabalho, às escolas, aos serviços de saúde e voltar para casa; não há linhas conectando pontos do centro da cidade nem linhas inter-bairros, de maneira que o uso do automóvel individual se torna quase inevitável para trajetos menores.
Em resumo: definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, empreiteiras da construção civil e empresas de transporte coletivo dominam a cidade sem assumir qualquer responsabilidade pública, impondo o que chamo de inferno urbano.
2. As manifestações paulistanas
A tradição de lutas
Recordando: A cidade de São Paulo (como várias das grandes cidades brasileiras) tem uma tradição histórica de revoltas populares contra as péssimas condições do transporte coletivo, isto é, a tradição do quebra-quebra quando, desesperados e enfurecidos, os cidadãos quebram e incendeiam ônibus e trens (à maneira do que faziam os operários no início da Segunda Revolução Industrial, quando usavam os tamancos de madeira – em francês, os sabots – para quebrar as máquinas – donde a palavra francesa sabotage, sabotagem). Entretanto, não foi este o caminho tomado pelas manifestações atuais e valeria a pena indagar por que. Talvez porque, vindo da esquerda, oMPL politiza explicitamente a contestação, em vez de politiza-la simbolicamente, como faz o quebra-quebra.
Recordando: Nas décadas de 1970 a 1990, as organizações de classe (sindicatos, associações, entidades) e os movimentos sociais e populares tiveram um papel político decisivo na implantação da democracia no Brasil pelos seguintes motivos:
1. introdução da idéia de direitos sociais, econômicos e culturais para além dos direitos civis liberais;
2. afirmação da capacidade auto-organizativa da sociedade;
3. introdução da prática da democracia participativa como condição da democracia representativa a ser efetivada pelos partidos políticos. Numa palavra: sindicatos, associações, entidades, movimentos sociais e movimentos populares eram políticos, valorizavam a política, propunham mudanças políticas e rumaram para a criação de partidos políticos como mediadores institucionais de suas demandas.
Isso quase desapareceu da cena histórica como efeito do neoliberalismo, que produziu:
1. fragmentação, terceirização e precarização do trabalho (tanto industrial como de serviços) dispersando a classe trabalhadora, que se vê diante do risco da perda de seus referenciais de identidade e de luta;
2. refluxo dos movimentos sociais e populares e sua substituição pelas ONGs, cuja lógica é distinta daquela que rege os movimentos sociais;
3. surgimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea, fragmentada, ainda desorganizada e que por isso ainda não tem suas próprias formas de luta e não se apresenta no espaço público e que por isso mesmo é atraída e devorada por ideologias individualistas como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a ideologia do “empreendedorismo” (da classe média), que estimulam a competição, o isolamento e o conflito inter-pessoal, quebrando formas anteriores de sociabilidade solidária e de luta coletiva.
Erguendo-se contra os efeitos do inferno urbano, as manifestações guardaram da tradição dos movimentos sociais e populares a organização horizontal, sem distinção hierárquica entre dirigentes e dirigidos. Mas, diversamente dos movimentos sociais e populares,  tiveram uma forma de convocação que as transformou num movimento de massa, com milhares de manifestantes nas ruas.
O pensamento mágico
A convocação foi feita por meio das redes sociais. Apesar da celebração  desse tipo de convocação, que derruba o monopólio dos meios de comunicação de massa, entretanto é preciso mencionar alguns problemas postos pelo uso dessas redes, que possui algumas características que o aproximam dos procedimentos da midia:
a. é indiferenciada: poderia ser para um show da Madonna, para uma maratona esportiva, etc. e calhou ser por causa da tarifa do transporte público;
b. tem a forma de um evento, ou seja, é pontual, sem passado, sem futuro e sem saldo organizativo porque, embora tenha partido de um movimento social (o MPL), à medida que cresceu passou á recusa gradativa da estrutura de um movimento social para se tornar um espetáculo de massa. (Dois exemplos confirmam isso: a ocupação de Wall Street pelos jovens de Nova York e que, antes de se dissolver, se tornou um ponto de atração turística para os que visitavam a cidade; e o caso do Egito, mais triste, pois com o fato das manifestações permanecerem como eventos e não se tornarem uma forma de auto-organização política da sociedade, deram ocasião para que os poderes existentes passassem de uma ditadura para outra);
c. assume gradativamente uma dimensão mágica, cuja origem se encontra na natureza do próprio instrumento tecnológico empregado, pois este opera magicamente, uma vez que os usuários são, exatamente, usuários e, portanto, não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam – ou seja, deste ponto de vista, encontram-se na mesma situação que os receptores dos meios de comunicação de massa.
A dimensão é mágica porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer. Ora, além da ausência de controle real sobre o instrumento, a magia repõe um dos recursos mais profundos da sociedade de consumo difundida pelos meios de comunicação, qual seja, a idéia de satisfação imediata do desejo, sem qualquer mediação;
d. a recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto,  indiferente à determinação de classe social; ou seja, no caso presente, ao se apresentar como uma ação da juventude, o movimento  assume a aparência de que o  universo dos manifestantes é homogêneo ou de massa, ainda que, efetivamente, seja heterogêneo do ponto de vista econômico, social e político, bastando lembrar que as manifestações das periferias não foram apenas de “juventude” nem de classe média, mas de jovens, adultos, crianças e idosos da classe trabalhadora.
No ponto de chegada, as manifestações introduziram o tema da corrupção política e a recusa dos partidos políticos. Sabemos que o MPL é  constituído por militantes de vários partidos de esquerda e, para assegurar a unidade do movimento, evitou a referência aos partidos de origem.
Por isso foi às ruas sem definir-se como expressão de partidos políticos e, em São Paulo, quando, na comemoração da vitória, os militantes partidários compareceram às ruas foram execrados, espancados, e expulsos como oportunistas – sofreram repressão violenta por parte da massa. Ou seja, alguns manifestantes praticaram sobre outros a violência que condenaram na polícia.
A crítica às instituições políticas não é infundada, mas possui base concreta:
a. no plano conjuntural: o inferno urbano é, efetivamente, responsabilidade dos partidos políticos governantes;
b. no plano estrutural: no Brasil, sociedade autoritária e excludente, os partidos políticos tendem a ser clubes privados de oligarquias locais, que usam o público para seus interesses privados; a qualidade dos legislativos nos três níveis é a mais baixa possível e a corrupção é estrutural; como consequência,  a relação de representação não se concretiza porque vigoram relações de favor, clientela, tutela e cooptação;
c. a crítica ao PT:  de ter abandonado a relação com aquilo que determinou seu nascimento e crescimento, isto é, o campo das lutas sociais auto-organizadas e ter-se transformado numa máquina burocrática e eleitoral (como têm dito e escrito muitos militantes ao longo dos últimos 20 anos).
Isso, porém, embora explique a recusa, não significa que esta tenha sido motivada pela clara compreensão do problema por parte dos manifestantes. De fato, a maioria deles não exprime em suas falas uma análise das causas desse modo de funcionamento dos partidos políticos, qual seja, a estrutura autoritária da sociedade brasileira, de um lado, e, de outro, o sistema político-partidário montado pelos casuímos da ditadura. Em lugar de lutar por uma reforma política, boa parte dos manifestantes recusa a legitimidade do partido político como instituição republicana e democrática.
Assim, sob este aspecto, apesar do uso das redes sociais e da crítica aos meios de comunicação, a maioria dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica difundida anos a fio pelos meios de comunicação de que os partidos são corruptos por essência.
Os meios de comunicação tem a finalidade de lhes conferir o monopólio das funções do espaço público, como se não fossem empresas  capitalistas movidas por interesses privados.
Dessa maneira, a recusa dos meios de comunicação e as críticas a eles endereçadas pelos manifestantes não impediram que grande parte deles aderisse à perspectiva da classe média conservadora difundida pela mídia a respeito da ética.
De fato, a maioria dos manifestantes, reproduzindo a linguagem midiática, falou de ética na política (ou seja, a transposição dos valores do espaço privado para o espaço público), quando, na verdade, se trataria de afirmar a ética da política (isto é, valores propriamente públicos), ética que não depende das virtudes morais das pessoas privadas dos políticos e sim da qualidade das instituições públicas enquanto instituições republicanas.
A ética da política, no nosso caso, depende de uma profunda reforma política que crie instituições democráticas republicanas e destrua de uma vez por todas a estrutura deixada pela ditadura, que força os partidos políticos a coalizões absurdas se quiserem governar, coalizões que comprometem o sentido e a finalidade de seus programas e abrem as comportas para a corrupção.
Em lugar da ideologia conservadora e midiática de que, por definição e por essência, a política é corrupta, trata-se de promover uma prática inovadora capaz de criar instituições públicas que impeçam a corrupção, garantam a participação, a representação e o controle dos interesses públicos e dos direitos pelos cidadãos. Numa palavra, uma invenção democrática.
Ora, ao entrar em cena o pensamento mágico, os manifestantes deixam de lado que, até que uma nova forma da política seja criada num futuro distante quando, talvez, a política se realizará sem partidos, por enquanto, numa república democrática (ao contrário de uma ditadura) ninguém governa sem um partido, pois é este que cria e prepara quadros para as funções governamentais para concretização dos objetivos e das metas dos governantes eleitos.
Bastaria que os manifestantes se informassem sobre o governo Collor para entender isso: Collor partiu das mesmas afirmações feitas por uma parte dos manifestantes (partido político é coisa de “marajá” e é corrupto) e se apresentou como um homem sem partido. Resultado: a) não teve quadros para montar o governo, nem diretrizes e metas coerentes e b) deu feição autocrática ao governo, isto é, “o governo sou eu”. Deu no que deu.
Além disso, parte dos manifestantes está adotando a posição ideológica típica da classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais. Eis porque surge a afirmação de muitos manifestantes, enrolados na bandeira nacional, de que “meu partido é meu país”, ignorando, talvez, que essa foi uma das afirmações fundamentais do nazismo contra os partidos políticos.
Assim, em lugar de inventar uma nova política, de ir rumo a uma invenção democrática, o pensamento mágico de grande parte dos manifestantes se ergueu contra a política, reduzida à figura da corrupção. Historicamente, sabemos onde isso foi dar.
E por isso não nos devem surpreender, ainda que devam nos alarmar, as imagens de jovens militantes de partidos e movimentos sociais de esquerda espancados e ensangüentados durante a manifestação de comemoração da vitória do MPL.
Já vimos essas imagens na Itália dos anos 1920, na Alemanha dos anos 1930 e no Brasil dos anos 1960-1970.
Conclusão provisória
Do ponto de vista simbólico, as manifestações possuem um sentido importante que contrabalança os problemas aqui mencionados.
Não se trata, como se ouviu dizer nos meios de comunicação, que finalmente os jovens abandonaram a “bolha” do condomínio e do shopping center e decidiram ocupar as ruas (já podemos prever o número de novelas e mini-séries que usarão essa idéia para incrementar o programa High School Brasil, da Rede Globo).
Simbolicamente, malgrado eles próprios e malgrado suas afirmações explícitas contra a política, os manifestantes realizaram um evento político: disseram não ao que aí está, contestando as ações dos poderes executivos municipais, estaduais e federal, assim como as do poder legislativo nos três níveis.
Praticando a tradição do humor corrosivo que percorre as ruas, modificaram o sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência, indicaram uma nova possibilidade de práxis política, uma brecha para repensar o poder, como escreveu um filósofo político sobre os acontecimentos de maio de 1968 na Europa.
Justamente porque uma nova possibilidade política está aberta, algumas observações merecem ser feitas para que fiquemos alertas aos riscos de apropriação e destruição dessa possibilidade pela direita conservadora e reacionária.
Comecemos por uma obviedade: como as manifestações são de massa (de juventude, como propala a mídia) e não aparecem em sua determinação de classe social, que, entretanto, é clara na composição social das manifestações das periferias paulistanas, é preciso lembrar que uma parte dos manifestantes não vive nas periferias das cidades, não experimenta a violência do cotidiano experimentada pela outra parte dos manifestantes.
Com isso, podemos fazer algumas indagações.
Por exemplo: os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)? Os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?
Essas indagações não são gratuitas nem expressão de má-vontade a respeito das manifestações de 2013. Elas têm um motivo político e um lastro histórico.
Motivo político: assinalamos anteriormente o risco de apropriação das manifestações rumo ao conservadorismo e ao autoritarismo. Só será possível evitar esse risco se os jovens manifestantes levarem em conta algumas perguntas:
1. estão dispostos a lutar contra as ações que causam o inferno urbano e, portanto, enfrentar pra valer o poder do capital de montadoras, empreiteiras e cartéis de transporte que, como todo sabem não se relacionam  pacificamente (para dizer o mínimo) com demandas sociais?
2. estão dispostos a abandonar a suposição de que a política se faz magicamente sem mediações institucionais?
3. estão dispostos a se engajar na luta pela reforma política, a fim de inventar uma nova política, libertária, democrática, republicana, participativa?
4. estão dispostos a não reduzir sua participação a um evento pontual e efêmero e a não se deixar seduzir pela imagem que deles querem produzir os meios de comunicação?
Lastro histórico: quando Luiza Erundina, partindo das demandas dos movimentos populares e dos compromissos com a justiça social, propôs a Tarifa Zero para o transporte público de São Paulo, ela explicou à sociedade que a tarifa precisava ser subsidiada pela Prefeitura e que ela não faria o subsídio implicar em cortes nos orçamentos de educação, saúde, moradia e assistência social, isto é, dos programas sociais prioritários de seu governo.
Antes de propor a Tarifa Zero, ela aumentou em 500% a frota da CMTC (explicação para os jovens: CMTC era a antiga empresa municipal de transporte) e forçou os empresários privados a renovar sua frota.
Depois disso, em inúmeras audiências públicas, ela apresentou todos os dados e planilhas da CMTC e obrigou os empresários das companhias privadas de transporte coletivo a fazer o mesmo, de maneira que a sociedade ficou plenamente informada quanto aos recursos que seriam necessários para o subsídio.
Ela propôs, então, que o subsídio viesse de uma mudança tributária: o IPTU progressivo, isto é, o imposto predial seria aumentado para os imóveis dos mais ricos, que contribuiriam para o subsídio juntamente com outros recursos da Prefeitura.
Na medida que os mais ricos, como pessoas privadas, têm serviçais domésticos que usam o transporte público, e, como empresários, têm funcionários usuários desse mesmo transporte, uma forma de realizar a transferência de renda, que é base da justiça social, seria exatamente fazer com que uma parte do subsídio viesse do novo IPTU.
Os jovens manifestantes de hoje desconhecem o que se passou: comerciantes fecharam ruas inteiras, empresários ameaçaram lockout das empresas, nos “bairros nobres” foram feitas  manifestações contra o “totalitarismo comunista” da prefeita e os poderosos da cidade “negociaram” com os vereadores a não aprovação do projeto de lei.
Tarifa Zero não foi implantada. Discutida na forma de democracia participativa, apresentada com lisura e ética política, sem qualquer mancha possível de corrupção, a proposta foi rejeitada.
Esse lastro histórico mostra o limite do pensamento mágico, pois não basta ausência de corrupção, como imaginam os manifestantes, para que tudo aconteça imediatamente da melhor maneira e como se deseja.
Cabe uma última observação: se não levarem em consideração a divisão social das classes, isto é, os conflitos de interesses e de poderes econômico-sociais na sociedade, os manifestantes não compreenderão o campo econômico-político no qual estão se movendo quando imaginam estar agindo fora da política e contra ela.
Entre os vários riscos dessa imaginação, convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, naBolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MEU BOM JOSÉ / MON VIEUX JOSEPH

TRAZENDO MÚSICA PARA NOSSO DIA  A  DIA.....
MEU BOM JOSÉ..... SUCESSO NOS ANOS 70 ( início de nossas adolescências )
FOI UM SUCESSO ESTRONDOSO
Do cantor e compositor francês de origem grega GEORGES MOUSTAKI,
No Brasil, a musica JOSE,  tornou-se sucesso na voz de  RITA LEE.



"JOSÉ"


Olha o que foi meu Bom José
Se apaixonar pela donzela
Entre todas as mais belas
De toda a sua Galileia
Casar com Débora ou com Sara,
Meu Bom José, você podia
E nada disso acontecia, mas você foi amar Maria.
Você podia simplesmente ser carpinteiro
E trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, de se esconder
Com Maria
Meu bom José, você podia, ter muitos filhos
Com Maria
E teu ofício ensinar
Como teu pai sempre fazia
Por que será meu bom José, que esse teu
pobre filho um dia
Andou com estranhas ideias,
que fizeram chorar Maria

Me lembro às vezes de você
Meu bom José, meu pobre amigo
Que desta vida só queria
Ser feliz com sua Maria

(stella maris)